sexta-feira, 24 de março de 2017

Chá preto e café da manhã — Literatura & Culinária - Donna Tartt (O Pintassilgo)


TEXTOS COM SABOR

Chá preto e café da manhã

***

“Chá preto, é disso que você precisa”, disse o sr. Barbour certa vez, enquanto eu cochilava no café da manhã, servindo-me uma xícara. “Assam Supreme. Forte que só vendo. Vai tirar o remédio do seu organismo na hora. Judy Garland? Antes dos shows? Bem, minha avó me disse que Sid Luft ligava pro restaurante chinês pedindo um grande bule de chá pra tirar todos os barbitúricos do organismo dela, isso em Londres, acho, no Palladium. Chá forte era a única coisa que resolvia, às vezes eles tinham sérias dificuldades pra conseguir acordá-la, sabe, só pra tirá-la da cama e vesti-la…”

“Ele não pode beber assim, é forte demais”, disse a sra. Barbour, colocando dois cubos de açúcar e bastante leite antes de me passar a xícara. “Theo, odeio ficar insistindo nisso, mas você realmente precisa comer alguma coisa.”

“Tá bem”, falei, sonolento, mas sem fazer menção de dar uma mordida no meu muffin de mirtilo. Pra mim, a comida tinha gosto de papelão; havia semanas não sentia fome.

“Prefere uma torrada com canela? Ou com aveia?”

“É absolutamente ridículo você não nos deixar tomar café”, disse Andy, que tinha o hábito de comprar um enorme no Starbucks a caminho da escola e depois outro na volta pra casa, sem o conhecimento dos pais. “Você está muito desatualizada nesse ponto.”

“Talvez”, disse a sra. Barbour, com frieza.

“Meia xícara já ajudaria. É absurdo esperarem que eu tenha química avançada às quinze para as nove da manhã sem nenhuma cafeína no sangue.”

“Coitadinho”, disse o sr. Barbour, sem tirar os olhos do jornal.

“Sua atitude não ajuda em nada. Todo mundo na escola toma café.”

“Acontece que eu sei que isso não é verdade”, disse a sra. Barbour. “Betsy Ingersoll me disse…”

“Talvez a sra. Ingersoll não deixe a Sabine tomar café, mas seria preciso bem mais que uma xícara pra aquela menina entrar em qualquer turma avançada.”

“Isso foi desnecessário, Andy, e muito indelicado.”

“Bem, só estou falando a verdade”, ele disse friamente. “Sabine é burra feito uma porta. Suponho que deva mesmo cuidar da saúde, já que não pode fazer nada em relação à cabeça.”

“Cérebro não é tudo, querido. Você comeria um ovo pochê se Etta fizesse pra você?”, perguntou a sra. Barbour, voltando-se para mim. “Ou frito? Ou mexido? O que você quiser.”

“Gosto de ovos mexidos!”, disse Toddy. “Posso comer quatro!”

“Não, você não pode, amigão”, disse o sr. Barbour.

“Sim, eu posso! Posso comer seis! Posso comer a caixa inteira!”

“Não é como se eu estivesse pedindo Dexedrina”, disse Andy. “Apesar de que até poderia conseguir na escola se quisesse.”

“Theo?”, disse a sra. Barbour. Percebi que Etta, a cozinheira, estava parada na porta. “E quanto àquele ovo?”

“Ninguém nunca pergunta o que a gente quer pro café da manhã”, disse Kitsey; e embora ela tenha falado bem alto todo mundo fingiu que não ouviu.

(P. 254)

****
Donna Tartt é uma escritoraromancistaensaísta e crítica norte americana.

O Pintassilgo (The Goldfinch)

Terceiro romance da escritora, publicado nos Estados Unidos da América em 2013, 11 anos depois do segundo livro da mesma autora. Manteve-se durante semanas na lista dos livros mais vendidos do New York Times, tendo ganho o Prémio Pulitzer de Ficção de 2014. A história tem por protagonista Theo Decker, que sobrevive aos 13 anos a um ataque terrorista que vitima mortalmente a mãe. Desorientado, numa nova casa, numa escola onde tem colegas que o perseguem, refugia-se num quadro, a obra de Carel Fabritius, "O Pintassilgo". Este romance é sobre a perda, o instinto de sobrevivência e a história de uma obsessão.
Donna Tartt tem auxiliado alguns autores desconhecidos a lançar a sua carreira e coopera em projectos tanto de ficção como não ficcionais, incluindo uma biografia controversa do actor Anthony Perkins. Wikipedia: Donna_Tartt

***

Nenhum comentário:

Postar um comentário