sábado, 7 de outubro de 2017

Literatura & Culinária - A Festa de Babette - Isak Dinesen (1955)


O assistente de Babette encheu um pequeno copo diante de cada membro do grupo. Ergueram-nos para os lábios com ar grave, confirmando sua resolução.
O general Loewenhielm, um pouco desconfiado de seu vinho, deu um gole, sobressaltou-se, ergueu o copo primeiro até o nariz e depois na altura dos olhos e o pousou atônito. “Isto é muito estranho!”, pensou. “Amontillado! E o melhor amontillado que já provei em minha vida.” Após um momento, a fim de testar seus sentidos, tomou uma colherada de sopa, depois uma segunda colherada, e baixou a colher. “Isto é incrivelmente estranho!”, disse de si para si. “Pois sem dúvida estou tomando sopa de tartaruga… e que sopa de tartaruga!” Foi presa de um tipo esquisito de pânico e esvaziou o copo.
Geralmente, em Berlevaag, as pessoas não falam muito quando estão comendo. Mas de algum modo, nessa noite, as línguas se soltaram. Um velho irmão contou a história de seu primeiro encontro com o deão. Outro, falou sobre o sermão que sessenta anos antes levara-o à conversão. Uma senhora idosa, aquela a quem Martine primeiro confiara sua preocupação, lembrou às amigas como, em todas as aflições, qualquer irmão ou irmã estava pronto para compartilhar o fardo alheio.
O general Loewenhielm, que deveria dominar a conversa à mesa do jantar, relatou que a coleção de sermões do deão era o livro favorito da rainha. Mas quando um novo prato foi servido, ficou em silêncio. “Incrível!”, disse para si mesmo. “É Blinis Demidoff!” Olhou em torno para os comensais. Todos comiam tranquilamente seu Blinis Demidoff, sem o menor traço de surpresa ou aprovação, como se houvessem feito aquilo todos os dias por trinta anos.
Uma irmã do outro lado da mesa introduziu o assunto de estranhos acontecimentos que se passaram quando o deão ainda se encontrava entre seus filhos e que se poderia ousar chamar de milagres. Acaso se lembravam, perguntou, da vez em que prometera fazer um sermão de Natal na cidade do outro lado do fiorde? Por duas semanas, o tempo estivera tão ruim que nenhum capitão ou pescador arriscaria uma travessia. Os moradores da cidadezinha já haviam perdido a esperança, mas o deão lhes disse que se nenhum barco o levasse, iria até eles caminhando por sobre as ondas. E não é que três dias antes do Natal a tempestade amainou e uma densa camada de gelo cobriu as águas do fiorde de costa a costa – e isso foi algo que jamais acontecera antes, até onde todos se lembravam!
O rapaz mais uma vez encheu os copos. Dessa vez, os irmãos e irmãs sabiam que aquilo que lhes era servido não era vinho, pois borbulhava. Devia ser algum tipo de limonada. A limonada harmonizou-se com o estado de espírito exaltado de todos e pareceu erguê-los do solo, para uma esfera mais elevada e pura.
O general Loewenhielm mais uma vez baixou o copo, virou-se para o vizinho da direita e disse: “Mas sem dúvida trata-se de um Veuve Clicquot 1860, não?”. O homem lançou-lhe um olhar benévolo, sorriu e fez uma observação sobre o tempo.
O ajudante de Babette tinha suas instruções; enchia os copos da irmandade apenas uma vez, mas voltava a encher o copo do general assim que esvaziava. O general o esvaziava rapidamente vez após outra. Afinal, como deve se portar um homem de bom senso quando não pode confiar em seus sentidos? Melhor ficar bêbado do que louco.
Na maioria das vezes, os moradores de Berlevaag, no transcorrer de uma boa refeição, sentiam-se um pouco pesados. Nessa noite não foi assim. Os convivas sentiam-se cada vez mais leves, e de espírito mais leve, quanto mais comiam e bebiam. Já não precisavam mais lembrar-se de sua promessa. Era, percebiam, quando o homem não só esquecia completamente, como também rejeitava firmemente toda ideia de alimento e bebida que ele comia e bebia no espírito certo.
O general Loewenhielm parou de mastigar e ficou imóvel. Mais uma vez viu-se levado de volta àquele jantar em Paris do qual se lembrara no trenó. Um prato incrivelmente refinado e saboroso fora servido na ocasião; ele perguntara o nome para um colega ao lado, o coronel Galliffet, e o coronel explicou-lhe sorridente que se chamava “Cailles en Sarcophage”. Posteriormente, contou-lhe que o prato fora criado pelo chef daquele mesmo café onde jantavam, uma pessoa conhecida por toda Paris como o maior gênio culinário da época, e – o mais surpreendente – uma mulher! “E de fato”, disse o coronel Galliffet, “essa mulher está transformando um jantar no Café Anglais numa espécie de envolvimento amoroso – num envolvimento amoroso daquela categoria nobre e romântica na qual a pessoa não mais distingue entre apetite ou saciedade, corporal e espiritual! Já tive oportunidade, certa feita, de duelar em nome de uma bela dama. Por nenhuma mulher em toda Paris, meu jovem amigo, eu derramaria meu sangue de mais boa vontade!” O general Loewenhielm virou-se para o comensal à esquerda e disse: “Mas isto é Cailles en Sarcophage!”. O vizinho, que estivera escutando a descrição de um milagre, fitou-o distraidamente, balançou a cabeça e respondeu: “Sim, sim, decerto. O que mais poderia ser?”.
Dos milagres do mestre, a conversa em torno da mesa enveredara para os milagres menores de bondade e obsequiosidade realizadas pelas suas filhas. O velho irmão que entoara o hino primeiro citou o deão dizendo: “As únicas coisas que devemos levar conosco desta vida terrena são as que doamos!”. Os convivas sorriram – que ricaças não seriam as pobres e simples donzelas no próximo mundo!
O general Loewenhielm não se espantava mais com nada. Quando, poucos minutos depois, viu uvas, pêssegos e figos frescos diante de si, riu para o comensal do outro lado da mesa e observou: “Que uvas lindas!”. O vizinho replicou: “E chegaram ao vale de Escol; lá cortaram um ramo de videira com um cacho de uvas que levaram sobre uma vara”. (p. 64)

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