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Mostrando postagens de dezembro, 2014

No céu ficam os astros apenas — Almada Negreiros

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José de Almada Negreiros Cada um de nós não pode deixar de ser o próprio, e ainda que para isso lhe seja indispensável a maior das forças de vontade. Efetivamente, o que os astros mandam não é para ficar no céu. No céu ficam os astros apenas. Nós somos exatamente o que eles mandam. E, verdade verdadinha, antes obedecer aos astros do que a outros. A nossa obediência aos astros é a um tempo involuntária e heroica. Involuntária, porque a vontade é a deles, e heroica, porque não há de ser vencida pela dos humanos. Há em cada pessoa um espírito de vitória e é o mais legítimo da sua vida íntima. Nenhuma alma em vida deixou de ser instada por este espírito de vitória. Ele é a mais bela expressão da cara humana, e a sua ausência a pior. O espírito de vitória é... o espírito de vitória não é..., e estes pensamentos gaguejavam na cabeça do Antunes como se ele fosse também gago da fala. Tinha-se-lhe ido de repente a ideia tão clara, e as palavras não tiveram tempo de a agarrar. Quando se quer...

O Diário de Eva (fragmentos) — Mark Twain

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Diário de Eva DOMINGO DA SEMANA SEGUINTE Durante toda a semana eu fiquei ao redor dele e tentei estabelecer relações. Tive que conversar sozinha, porque ele se sentiu intimidado, mas não me importei com isso. Ele parecia feliz de me ter por perto, e eu usei o sociável "nós” por um bom tempo, porque ele parecia ficar lisonjeado ao ser incluído. QUARTA-FEIRA Estamos nos dando muito bem, de fato, agora, e nos conhecendo cada vez melhor. Ele já não tenta me evitar, o que é um bom sinal, e demonstra que gosta de que eu esteja por perto. Isto me agrada, e eu estudo como ser útil para ele de todas as maneiras que puder, para assim aumentar a sua atenção. Durante os últimos dois dias eu tirei de seus ombros todo o trabalho de dar nome às coisas, e foi um grande alívio para ele, pois ele não tem talento para tanto e está evidentemente muito agradecido. Ele não consegue pensar num único nome racional para salvar sua reputação, mas não o deixo perceber que estou consciente deste s...

O Diário de Adão (fragmentos) — Mark Twain

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FRAGMENTOS DO DIÁRIO DE ADÃO QUARTA-FEIRA Construí um abrigo contra a chuva, mas não pude desfrutá-lo em paz. A nova criatura intrometeu-se nele. Quando tentei expulsá-la, ela verteu água pelos orifícios pelos quais olha, e enxugou-a com as costas de suas patas, produzindo um ruído semelhante ao que vários animais fazem quando estão aflitos. Gostaria que não falasse; está sempre falando. Isso parece uma implicância gratuita com a pobre criatura, um insulto; mas não é o que quero dizer. Eu nunca havia escutado uma voz humana antes, e qualquer som novo e estranho que irrompe sobre o murmurar solene destas vastidões sonhadoras ofende meus ouvidos e soa como uma nota falsa. E este novo som está tão perto; bem ao lado do meu ombro, em cima das minhas orelhas, primeiro de um lado, depois do outro, e estou acostumado apenas a sons que estão mais ou menos longe de mim. SEXTA-FEIRA O processo de nomear continua intenso e sem qualquer controle, e não há nada que eu possa fazer. Eu...

Estou cansado de confiar em mim próprio — Fernando Pessoa

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Fernando Pessoa [Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar]                                           25-7-1907       Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar, de derramar lágrimas de piedade de mim próprio. Acabo de ter uma espécie de cena com a Tia Rita por causa de E. Coelho. No final, senti novamente um daqueles sintomas que se tornam cada vez mais claros e mais horríveis em mim: uma vertigem moral. Na vertigem física há um rodopiar do mundo exterior à nossa volta; na vertigem moral um rodopiar do mundo interior. Pareceu-me perder, por momentos, o sentido das verdadeiras relações das coisas, perder a compreensão, cair num abismo de dormência mental. É uma sensação pavorosa, que nos acomete de um medo desmesurado. Estas sensações estão a tornar-se comuns, parecem abrir-me o caminho para uma nova vida mental, que será, evidentemen...