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Mostrando postagens de julho, 2015

Com a arte não se brinca — Julio Cortázar e Man Ray

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O Presente, Man Ray. Man Ray pensava em seu ferro de engomar cheio de pregos e outros estupendos objetos quando afirmou: De maneira nenhuma eles deviam ser confundidos com as pretensões estéticas ou o virtuosismo plástico que em geral se espera das obras de arte. Naturalmente - acrescentava a corujinha de óculos pensando na tal senhora -, os visitantes da minha exposição ficavam perplexos e não se atreviam a divertir-se, porque uma galeria de pintura é considerada um santuário onde não se brinca com a arte . E não se atreviam a divertir-se. Man Ray, como você gostaria de ter ouvido o que eu ouvi alguns meses atrás em Genebra, onde uma galeria da cidade velha prestava uma homenagem ao Dadá. Lá estava justamente o seu ferro cheio de pregos, e enquanto a senhora lá de cima o contemplava com gélido respeito, uma garota ruiva mantinha esse diálogo exemplar com outra quase loura: — No fundo, não é tão diferente do meu ferro. — Como assim? — É, com esse você se espeta...

Uma Confusão Cotidiana — Franz Kafka (miniconto)

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"Franz Kafka" por Robert Crumb. UMA CONFUSÃO COTIDIANA  Franz Kafka Um incidente cotidiano: suportá-lo, uma confusão cotidiana. A precisa fechar com B, de H, um negócio importante. Vai a H para uma conversa prévia, percorre o caminho de ida e o de volta em dez minutos cada, e em casa se gaba dessa particular rapidez. No dia seguinte vai de novo a H, desta vez para o fechamento definitivo do negócio. Tendo em vista que este, segundo as previsões, exigirá várias horas, A parte de manhã bem cedo. Mas embora todas as circunstâncias — pelo menos na opinião de A — sejam exatamente as mesmas do dia anterior, dessa vez ele precisa de dez horas para fazer o caminho até H. Quando chega lá à noite, exausto, dizem-lhe que B, irritado com o não-comparecimento de A, tinha ido fazia meia hora para a aldeia de A e que na verdade deveriam ter-se encontrado no caminho. Aconselham A a esperar. Mas A, angustiado com a realização do negócio, parte imediatamente e vai às pressas para...

O Gato Velho — Poema e desenho de Patricia Highsmith

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Desenho da autora. O GATO VELHO Nada foi feito para mim, Não, nem mesmo a lareira, Pois algumas vezes sinto frio e não há fogo, E outras vezes, não me deixam ir até ali. Sombras me entediam, e se acaso são um mistério É bem sem graça. Meus ta-tataranetos Brincam insensatos ao meu redor, mas eu agora já sei Que os forros das coisas são apenas forros, E que atrás da porta entreaberta Há outra sala como esta aqui. Gosto de sentar com meus olhos semicerrados, Porque já vi de tudo E minhas memórias são bem mais interessantes. Estou em paz com tudo. Até os camundongos podem vir a poucos centímetros, Sabendo que aposentei nossa antiga guerra. Apenas meus ta-tataranetos Me irritam às vezes, puxando meu rabo, Esbarrando e escorregando por cima de mim. Dou-lhes uns bons tapas nas orelhas, E volto para onde deixei meus pensamentos. Estou em paz com tudo. Patricia Highsmith

Para fazer um poema dadaísta — Tristan Tzara

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Para fazer um poema dadaísta Pegue num jornal. Pegue numa tesoura. Escolha no jornal um artigo que tenha o tamanho que pensa dar ao seu poema. Recorte o artigo. Recorte seguidamente com cuidado as palavras que formam o artigo e meta-as num saco. Agite com cuidado. Seguidamente, retire os recortes um por um. Copie conscienciosamente segundo a ordem pela qual foram saindo do saco. O poema parecer-se-á consigo. E você tornou-se um escritor infinitamente original e duma sensibilidade encantadora, ainda que incompreendida pelo vulgo. Tristan Tzara

A Morta — Guy de Maupassant (Conto fantástico)

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A Morta Guy de Maupassant Eu a amei perdidamente! E por que amamos? É mesmo estranho ver no mundo somente um ser, ter no espírito um pensamento único, no coração um desejo, na boca um só nome: um nome que se eleva incessantemente, que sobe, como a água de uma fonte, do íntimo da alma à flor dos lábios, e que se pronuncia, que se repete, que se murmura continuamente, por toda parte, como uma prece elegíaca. Não contarei nossa história. O amor tem só uma, a mesma de sempre. Encontrei-a na vida e amei-a. Eis tudo. E durante um ano vivi de sua carícia, no aconchego de seus braços, embalado por sua voz, iluminado por seu olhar, aprisionado, envolvido, ligado a tudo que emanava de seu ser, mas de tal maneira que não sabia quando era tarde ou aurora, que ignorava se era morto ou vivo, sobre a terra ou fora da terra... E ela morreu! Como? Não sei mais! Ela saiu numa noite chuvosa e retornou encharcada; e, no outro dia, tossiu. Tossiu por uma semana, de cama. O que aconteceu? Não s...