quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Clube do Haxixe — O Homem do Haxixe por Lord Dunsany
Contos Únicos - O Anúncio por Nugent Barker
Esta série tem como objetivo oferecer algumas histórias que, embora quase totalmente desconhecidas hoje em dia (mesmo em seus países de origem, até mesmo para os fãs mais fervorosos do gênero), poderiam, ainda assim, rivalizar com muitas das obras mais célebres da literatura de fantasmas, terror ou fantasia. Seu único obstáculo para alcançar esse objetivo talvez tenha sido o fato de serem as únicas aceitáveis de cada autor.
Por volta das três horas da tarde de um dia quente de agosto, um homem alto, com cara de estudioso, saiu de um beco e começou a caminhar sem pressa ao longo dessa importante artéria urbana, no meio do barulho do trânsito. As pessoas esbarravam nele a cada passo, e então ele levantava-se do chão e pedia desculpa com os olhos.
Quando se apercebeu de que estava prestes a entrar na Biblioteca Pública, um sorriso amargo espalhou-se pelo seu rosto, e ficou parado por um momento, olhando para as duas manchas solares espelhadas nos seus sapatos. A força do hábito tinha-o levado até ali, a meio das escadas da biblioteca. O sítio onde tinha pensado ir era cem metros mais à frente, na mesma rua.
De repente, deu por si no balcão onde se devolvem os livros e se pagam as multas. O rosto familiar da jovem sorriu-lhe com os seus lábios cheios e ele sentiu-se reconfortado. Apressou-se a sorrir de volta e disse:
"Não estou aqui para devolver nenhum livro, mas para levar alguns" disse ele, e depois passou mais de uma hora a folhear livros.
Começou por folhear as prateleiras de ficção. Austen, Balzac, Chekhov, Conrad, Flaubert - nomes que, naquela tarde quente em que cada minuto parecia uma hora, e toda a sua mente aguardava em suspense, lhe traziam vividamente à memória personagens e cenas com as quais tanto se divertira, e a certeza de que voltariam a enchê-lo de prazer. Por vezes, um súbito impulso levava-o a tocar nalgum livro com os seus dedos finos; mas só quando chegou a Gautier é que retirou algum do seu lugar. E então, afastando-se das prateleiras, leu pela sexta ou sétima vez na sua vida a descrição da velha mansão do capitão Fracasse. A desolação da passagem ajustava-se perfeitamente ao seu estado de espírito. Volta a ouvir o coaxar das rãs no rio. Voltou a ver o telhado de telhas vermelhas, remendado como se tivesse lepra, as vigas contra as quais os morcegos batiam no seu voo, as portadas partidas, a gruta povoada de estátuas no jardim coberto de ervas daninhas. E, minutos depois, voltou a vaguear sem rumo entre as prateleiras da biblioteca. Refrescou o seu coração com nomes como Singapura, Macassar ou Carimata. Ouviu a música de amor apaixonado que Freya Nelson - ou Nielsen - tocava numa das Sete Ilhas.
O estado de espírito que o levava a abrir este ou aquele livro mudava rapidamente de direção. Em breve estava à procura de outra atmosfera, de outro autor, e escolhia-os com um discernimento seguro. Deixou Conrad e depois procurou a paisagem abrupta de O Duelo, de Tchekhov. As personagens tinham saído para fazer um piquenique no campo e as sombras do crepúsculo já se aproximavam. Pedras espalhadas pelo prado serviam de assentos; uma manta de viagem estava estendida no chão e uma fogueira ardia. À sua volta, altas montanhas erguiam-se contra o céu. Formavam uma moldura imponente que parecia manter à distância os nervos frágeis e em frangalhos dos caminhantes.
A seção de empréstimos era vasta e fria; além das janelas voltadas para o oeste, um jardim brilhava ao sol. O homem vagava silenciosamente de livro em livro. Às vezes, seus pensamentos se voltavam para assassinatos, roubos e estranhas invenções relacionadas à morte. Noites em que a arte sombria do romance policial tinha um efeito sedativo sobre ele, permitindo-lhe cair num sono profundo. Tais eram as histórias que ele agora começava a folhear. Nervosamente, virava as páginas grossas, lendo os títulos sugestivos dos capítulos. E, durante todo o tempo, uma expressão de angústia, não isenta de horror, contorcia seu rosto.
Das prateleiras de ficção, ele se dirigiu às de "outros gêneros", e sua mão pálida, brilhando à luz do sol, puxou um exemplar do Livro dos Criminosos Notáveis de H. B. Irving. Certa vez, cogitara a ideia de publicar um livro como aquele, ou de escrever para alguém como o Reverendo Selby Watson, que numa tarde de domingo matara a esposa num acesso de melancolia. E lá estava também o Dr. Castaing, que, com seu rosto comprido e feições tão regulares, o cabelo penteado para trás, a testa alta e aqueles olhos caídos, parecia mais um padre do que um médico. O leitor ergueu os olhos e, na prateleira acima, descobriu A História dos Cardeais Ingleses; e, cobrindo-lhes a boca ou os olhos com a mão fina, estudou atentamente aqueles rostos clericais.
As biografias o entretiveram por um bom tempo. Ele lia sobre músicos, artistas, inventores, exploradores; até que, de repente, sentiu um desejo incontrolável por mapas e geografia, por livros de viagem, especialmente aqueles sobre as vastas planícies do interior da Inglaterra e descrições de condados que nunca visitara. Encontrou um sobre Rutland e folheou uma página sobre suas paisagens típicas; encontrou e examinou outro sobre as cidades do Vale do Tâmisa e observou atentamente suas ilustrações… a da antiga ponte, por exemplo, atravessando as profundas planícies…
Voltando às prateleiras de ficção, ele procurou os romances que sempre quisera ler, mas nunca lera: A Cartuxa de Parma, de Stendhal; Pais e Filhos, de Turgenev; as sátiras de Erewhon, de Samuel Butler; os contos do Conde de Gobineau; e muitos outros. Não os pegou para se aprofundar na leitura. Contentava-se em contemplar os títulos. Ali estava o segundo volume de O Vermelho e o Negro; estava lendo o primeiro, pois o tinha em casa; em algumas passagens, na sutil mudança de uma frase, conseguira até mesmo adivinhar o terrível final. E, passeando pensativamente pelas prateleiras, chegou a Merrick. Gostava muito de Merrick. Conrad em Busca da Juventude era um de seus livros favoritos. Mas o livro não estava onde deveria estar e, de repente, enquanto encarava a prateleira vazia onde a busca pela juventude deveria estar, sua boca secou e um gosto amargo persistiu em seu paladar, fazendo-o estremecer. Ele apressou-se em direção ao balcão de saída. A jovem sorriu para ele com seus lábios carnudos; seus óculos admiravelmente redondos refletiam a luz do sol, obscurecendo seus olhos.
“Não peguei nenhum livro”, disse ele com voz grave, e saiu para o hall de entrada. Na parede havia uma placa de mármore; nela, ele leu o nome de um dos antigos prefeitos, um nome que, por dias e dias depois, continuaria a ecoar em sua mente. Algumas crianças vieram correndo e gritando da rua. Elas carregavam livros debaixo do braço. Esbarraram nele e desapareceram pela porta da Seção Infantil.
Ele aventurou-se por um corredor que levava a uma escadaria, sem saber para onde ia. Naquele túnel mal iluminado, viu uma estante robusta, reforçada por grossas vigas. Enormes tomos do The Times estavam enfileirados nela, cada volume cobrindo um ano. Num acesso de raiva, pegou um deles e, segurando-o com os dois braços, carregou-o com mais facilidade do que esperava até uma mesa na Sala de Leitura. Lá, folheou aquelas páginas amareladas que deviam ter sido brancas como linho uns cinquenta anos antes. Nunca tinha visto aquele anúncio. Será que sua mãe o guardara? Será que suas mãos o preservaram?
WARRINGTON-COOMBE: Em 10 de agosto de 1885, no número 41 da Rua Durham, em Fulham, MARY, esposa de R. H. Warrington-Coombe, deu à luz um filho.
Ao pé da escadaria da biblioteca, um bebê em um carrinho o encarava com seu rosto feio e enrugado. Ensurdecido pelo trânsito, ofuscado pelo sol, ele caminhou desafiadoramente pela multidão. Estavam construindo uma nova ala em um prédio de lojas de departamentos, e ele ouviu as marteladas dos operários erguendo os andaimes. Quando finalmente entrou no prédio que pretendia visitar primeiro, seus joelhos tremeram e ele sentiu frio. O policial sentado atrás de uma mesa em uma sala vazia com cheiro de tinta olhou para o homem com olhos tão azuis quanto benevolentes. Então, enquanto estudava as mãos e a boca do visitante, escutou-o.
"Meu nome é John Warrington-Coombe", disse o homem que saiu da biblioteca. "Moro na Rua Durham. Morei lá a vida toda."
Então ele umedeceu os lábios com a língua e a mesa tremeu por um instante.
"Vim me entregar", murmurou ele com a voz rouca. "Matei minha mãe."
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Título original: The Announcement (1939)
Tradução: H. A. Schmitz (com Google Translator)
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NUGENT Barker (1888) nasceu em Londres e está hoje tão esquecido que nem sequer se sabe quando morreu. Nas décadas de 1920 e 1930, no entanto, era bem conhecido, contribuindo com histórias para numerosas revistas como The Cornhill, The Fortnightly Review, Life and Letters e The London Mercury. Os seus livros, se é que existiram, são ainda menos recordados do que os seus contos, ou talvez os seus contos sejam tão pouco recordados precisamente porque não constituíram livros.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Aberturas célebres — Um Conto de Duas Cidades
Virtuosismo paradoxal…
"Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário — em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas de suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação."
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Charles Dickens
Um Conto de Duas Cidades
1859
domingo, 12 de outubro de 2025
1.000 PALAVRAS — Que Mistério tem Clarice? Sérgio Abranches
Susto definitivo
Há sustos que são definitivos. Deixam uma pequena bola de gelo perene incrustada naquela parte da alma que fica na altura do estômago. O susto a pegou já na rua, quando deixou o prédio. De repente, o mundo desapareceu em uma nuvem tempestuosa de dúvidas. Perdeu o rumo naquela neblina espessa e foi então que sentiu a pequena bola de gelo congelar o ponto crucial do miolo de seu ser.
— Quanto tempo?
— Um ano… dois… até cinco — respondeu seu médico pessoal, Luiz Rémy, com anuência do dr. Rabello, o especialista.
— Como são os tratamentos?
Quem respondeu desta vez foi o dr. Rabello:
— Em alguns casos recorre-se a cirurgias cada vez mais agressivas, para tentar eliminar o máximo de tecido canceroso. Mas não atende as suas condições. Radioterapia pode ajudar a reduzir o tumor e o ritmo de crescimento nos casos de detecção precoce. Não é o que estamos vendo. O caminho recomendado é a quimioterapia.
— Quanto tempo sem limitações que me aprisionem a uma cama ou cirurgias invasivas e mutilações? Falo de tempo ativo, consciente, mobilidade, lucidez, autonomia, livre-arbítrio.
— É um prognóstico difícil, mas há casos de cura e temos meios de melhorar sua qualidade de vida. Um ano, um ano e meio, dois anos, até cinco — Rémy continuou. — É imprevisível. Há muitos riscos. Com muitos cuidados e períodos menos ativos, de fraqueza, é possível garantir a qualidade de vida e até mantê-la por alguns anos. Há casos de pessoas que sobreviveram mais de cinco anos. Mas a localização do seu tumor e o estágio em que ele está tornam as coisas mais difíceis. Precisamos montar uma estratégia. A responsabilidade maior do tratamento será do Rabello, que é o oncologista. Como seu clínico e médico pessoal, acompanharei todo o processo.
— Não quero, não desejo, não posso ficar… ser mantida sem condições de vida ativa, digna.
— É um direito seu. Tudo depende de como a doença vai progredir. Às vezes, ela se torna dolorosa e seria necessário estabelecermos um procedimento para controle da dor, que pode exigir opiáceos. Minha preferência é sempre pela morfina. É possível fazer esse controle sem necessidade de internação, sem que você precise ficar permanentemente sob o efeito da droga.
— Se isso acontecer, interrompa todo tratamento que prolongue minha vida. Deixe-me ir…
— Farei o máximo para atender à sua vontade, dentro do que a lei permite e a ética aconselha.
— Não há possibilidade de que não sejam esses o diagnóstico e o prognóstico?
— Não. Mas você tem direito a uma segunda opinião, a quantas opiniões quiser. Posso lhe indicar os melhores, em São Paulo, nos Estados Unidos, na França. Não somos infalíveis, temos nossos limites.
— Não precisa. Não vou pesquisar o inevitável. Faremos como vocês disserem. — Ficou calada por um tempo. Os dois médicos respeitaram seu silêncio. — Rémy, qual o seu prognóstico. Seja sincero, você me conhece. Já é dor extrema receber essa notícia. Pior seria não ter ideia de quanto tempo ainda me resta…
— Um ano e meio… dificilmente mais que dois anos.
Ela olhou para o dr. Rabello:
— É este o meu prognóstico também.
Deixou o consultório sem pensar muito no que haviam falado. Quando saiu do vestíbulo sombrio para o dia ensolarado e ameno do outono carioca, o susto a pegou. Perdeu a noção de onde estava. O ar lhe faltou. Precisou encostar-se à parede do prédio para que a vertigem não a derrubasse. A frase que continha sua vida toda “Um ano e meio…” ecoava em sua cabeça. Não percebia mais o que fazia. Não viu quando acenou para um táxi, nem ouviu quando disse “Urca, por favor” ao motorista. Quando chegaram e o motorista lhe perguntou o endereço, disse “aqui”, sem pensar. Ele parou. Desceu do táxi, numa esquina duas quadras antes de sua casa, sem sequer se dar conta de ter pago a corrida. Fazia tudo como se estivesse hipnotizada, maquinalmente. Olhava sem enxergar. Caminhou até sua casa levada pelo instinto. Entrou. Atravessou a varanda e foi até o jardim interno. Ficou lá, parada. A titônia, amarela e exuberante, brilhava. Abelhas, vespas e borboletas pousavam em seus pistilos generosos. Mas Clarice não via aquela celebração outonal. O espanto a dominava e a única parte sensível de seu corpo era aquela na qual o gelo incorpóreo congelava sua alma e paralisava sua mente. Era toda susto. Demorou, nunca soube quanto, olhando para muito além do que Einstein chamou de delírios óticos da consciência cotidiana. Olhava o infinito e, pela primeira vez, conseguia vê-lo com toda a nitidez. Mirando-o de frente e em toda a sua extensão, o infinito não a amedrontava. Também não temia olhar para o marco que demarcava seu próprio fim no infindável. Saber que estava para chegar àquele destino, aos cinquenta e oito anos de idade, era um susto incomensurável. Mas não sentia medo. E foi a ausência do medo que a libertou daquele transe, fez o choque passar, deixando-a retomar o pensamento. A bolinha de gelo permanecia lá, onde se aconchegara, enviando ondas de frio por sua espinha. Ela não a deixaria esquecer que sabia agora o limite quase exato de sua vida.
Conseguia não ter medo. Mas não se livraria nunca da sensação desconhecida, desoladora e definitiva de que o termo de sua vida se aproximava célere. Foi-se o choque, ficou o susto. Este seria definitivo enquanto durasse. Pôde, afinal, pensar no que tinha pela frente. Vida abreviada. Queria dedicá-la aos amigos queridos e aos filhos, Jorge e Marina. Pensou com ternura neles. Tão diferentes e tão interessantes, cada um a sua maneira. E tinha uma decisão grave a tomar que havia se tornado inadiável. Seria muito mais difícil do que as relacionadas ao tratamento. Tratar-se era algo irrecusável, real e concreto. O que precisava resolver a obrigaria a atravessar o denso véu que cobria seu passado, até o decisivo momento que nunca havia pensado revisitar. Mas nele não habitavam apenas suas memórias, apagadas com firme precisão. Lá estava aquela que havia sido sua proteção e seu conforto em anos decisivos e que abandonara e fizera sofrer.
Aquela não havia sido sua primeira consulta com o médico Luiz Rémy, sobre o mal-estar diferente que havia começado a sentir. A primeira também havia sido penosa, embora amigável como sempre. Quando ligou para lhe contar dos incômodos, o médico disse que precisava vê-la, não era algo que pudesse resolver pelo telefone com um analgésico e um relaxante muscular. Ao entrar no consultório, o olhar de Rémy mostrou que suspeitava de algo mais grave. Pediu muitos exames e uma preocupante tomografia. Perguntou-lhe o que era. Ele respondeu que suspeitava de um tumor. Quis acalmá-la, suspeitas nem sempre se confirmam, disse. Mas ela conhecia a qualidade de seus diagnósticos. Ele pedia exames mais para confirmar que para saber. Na segunda consulta disse-lhe que tinha câncer no pâncreas, provavelmente em estágio avançado. Havia chamado o oncologista, Paulo Rabello. Foi quando tiveram a conversa que lhe provocou o maior susto da vida. O inesperado lhe fazia uma surpresa angustiosa, deixando sua alma em sobressalto. Choque sem medo que a afogou em um oceano de indagações.
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Que Mistério tem Clarice?
Sérgio Abranches
São Paulo: Editora Globo, 2014
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O ano é 2012. Clarice, escritora e professora bem-sucedida, recebe uma notícia inesperada. Tem um tumor maligno e só mais alguns meses de vida. Final dos anos 60. Uma adolescente sai de uma delegacia, em São Paulo, com o vestido encharcado de sangue. Seu rumo é a clandestinidade. Em 1972, uma moça chamada Amália visita cidades do interior de Minas Gerais, dizendo estar à procura de uma tia. Réveillon de 1978. Um casal de jovens amanhece nas areias de Ipanema sem saber que aquela noite mudaria suas vidas para sempre. O novo romance de Sérgio Abranches parte dos dias atuais para, numa viagem por tempos e paisagens distintas, narrar a história de uma mulher que acaba se confrontando com um passado que julgara esquecido. Numa trama que alia engenho e delicadeza, usa a ficção para abordar temas caros ao Brasil contemporâneo, como a culpa nos processos históricos, as faces movediças da verdade, o autoritarismo e a indiferença. Seu ponto de partida é a convivência de Clarice com os dois filhos. No momento em que ela recebe o diagnóstico, Jorge, o primogênito, está na África, fotografando. Marina está em uma cidade histórica da Boêmia, escrevendo reportagens de turismo. Logo eles se reúnem à mãe para desfrutarem momentos de cumplicidade, em longas conversas sobre literatura, filosofia e história. E é aí que se revela uma das características mais marcantes deste livro: a mistura de prosa e ensaísmo. Com referências a Kafka, Hemingway, Garcia Lorca, Hermann Hesse e Wittgenstein, os diálogos e pensamentos de Clarice dão vida a debates cheios de nuances, em busca de clareza. Com uma narrativa envolvente, o romance converge para um ponto central: qual é, afinal, o segredo de Clarice? Na teia que se desenha ao redor dessa pergunta, o autor cria um elogio à coragem, à alteridade e ao prazer de estar vivo. Ante a morte, a protagonista se volta, resoluta, para a celebração da vida e de suas contradições.
quinta-feira, 9 de outubro de 2025
Primeiras Mil Palavras — Sátántangó de László Krasznahorkai
Aqui estão as primeiras 1k palavras deste romance escrito pelo húngaro László Krasznahorkai vencedor do prêmio Nobel de Literatura deste ano (2025).
1. A notícia de que eles estavam chegando
Numa manhã do final de outubro, não muito antes que as primeiras gotas das chuvas impiedosamente longas de outono se desprendessem sobre a terra rachada, ressequida, do lado ocidental do assentamento (para que depois o mar pútrido de lama tornasse intransitáveis os caminhos, e também a cidade ficasse inacessível), Futaki despertou ao som de sinos. A quatro quilômetros de distância a sudoeste, nas antigas terras de Hochmeiss, existia uma capela solitária, porém lá não apenas não havia sino como a torre desabara no tempo da guerra, ao passo que a cidade, por sua vez, ficava muito afastada para que dela chegasse algum som. Além disso, o badalar plangente, triunfante, não lembrava sinos distantes, mais parecia que o vento o tinha trazido de bem perto (“Como se viesse do moinho…”) para aqueles lados. Ele apoiou os cotovelos no travesseiro para olhar pela janela minúscula da cozinha, mas através do vidro meio embaçado o assentamento, imerso no amanhecer azulado e no gemido dos sinos que aos poucos silenciaram, ainda estava mudo e inerte: no extremo oposto, entre as casas distantes umas das outras, somente pelas cortinas da janela do médico se filtrava uma luminosidade, nesse caso porque havia anos o morador não conseguia adormecer no escuro. Ele prendeu a respiração para, na vazante do estrépito dos sinos, não perder uma única ressonância extraviada, porque desejava saber a verdade (“Você com certeza ainda está dormindo, Futaki…”) e, para tanto, precisava de cada som, ainda que fosse singular. Com seus passos míticos, macios, de gato, ele se dirigiu, manquitolando sobre a pedra gelada da cozinha, à janela (“Não há ninguém acordado? Ninguém está ouvindo? Mais ninguém?”), abriu os painéis e se debruçou para fora. Um ar cortante, úmido, o golpeou, por um instante ele foi obrigado a fechar os olhos; e por conta do cacarejo dos galos, dos gritos distantes e do zunido agudo, implacável, do vento que minutos antes se alçara, no silêncio profundo de nada serviu aguçar os ouvidos, ele não escutou nada além das batidas surdas do próprio coração, como se tudo fosse uma brincadeira espectral da vigília (“… Como se alguém quisesse me assustar”). Contemplou tristemente o céu ameaçador, os restos queimados do verão cheio de gafanhotos, e de súbito viu passar pelo mesmo ramo de acácia a primavera, o verão, o outono e o inverno, como se sentisse de leve que na esfera imóvel da eternidade a totalidade do tempo gracejasse, enganando, ao superar os obstáculos da confusão reinante, a planura demoníaca, e, uma vez criadas as alturas, ele falseasse, de modo que parecesse inevitável, a loucura… e se viu no crucifixo sobre o berço e o caixão debatendo-se com dificuldade, para, por fim — sem braçadeiras nem condecorações —, se entregar, desnudo, a uma condenação explosiva, seca, nas mãos dos lavadores de mortos, para o riso dos coureiros incansáveis, em que ele depois se veria obrigado a reconhecer sem piedade a medida das coisas humanas, sem que uma única trilha o conduzisse de volta, porque nessa hora ele saberia que se metera com carteadores desonestos numa partida jogada desde bem antes, em cujo final eles lhe roubariam a última arma, a esperança de que voltaria a encontrar em algum momento o caminho de casa. Virou a cabeça para o lado, na direção das construções um dia cheias e barulhentas, hoje decrépitas e abandonadas, na parte oriental do assentamento, e observou amargurado os primeiros raios de sol inchados, vermelhos que irrompiam pelas frestas do teto do estábulo meio destelhado, quase em ruínas. “Afinal, preciso me decidir. Não posso ficar aqui.” Voltou para debaixo da colcha quente, apoiou a cabeça nos braços, mas não conseguiu fechar os olhos: os sinos espectrais o horrorizaram, porém não mais que o repentino silêncio, o mutismo ameaçador, porque sentiu que tudo poderia acontecer. Mas, como ele, nada se moveu na cama, até que entre os objetos silenciosos à sua volta iniciou-se de repente um diálogo (o armário estremeceu, uma panela trepidou, um prato de porcelana deslizou para seu lugar) e ele então de súbito se virou, deu as costas para o suor que escorria da sra. Schmidt, palpou com uma das mãos o copo de água junto da cama e o bebeu de uma vez. Com isso ele se libertou do medo infantil; suspirou, limpou a transpiração da testa e, como sabia que Schmidt e Kráner somente naquela hora tocariam os bois para levá-los do Szikes ao estábulo de Gazda, ao norte do assentamento, onde por fim eles receberiam o dinheiro amargo referente a nove meses de trabalho, e portanto um bom par de horas se passaria até que de lá chegassem em casa, decidiu que tentaria dormir mais um pouco. Fechou os olhos, virou-se de lado, abraçou a mulher, e quase tinha cochilado quando de novo ouviu os sinos. “Droga!” Levantou a colcha, mas no instante em que os pés descalços, calejados, tocaram o piso de pedra da cozinha, os sons de repente cessaram (“Como se alguém tivesse acenado para que parassem…”). Ficou sentado, encolhido na beirada da cama, com as mãos entrelaçadas no colo, em seguida seu olhar pousou no copo vazio: a garganta estava seca, o pé direito formigava, e ele não teve coragem de se deitar de novo nem de se levantar. “Vou embora, o mais tardar amanhã.” Examinou em sequência os utensílios ainda aproveitáveis da cozinha sombria, o fogão sujo de gordura queimada e restos de comida, a cesta de alça esgarçada debaixo dele, a mesa de pés bambos, os retratos empoeirados de santos na parede, as panelas e travessas amontoadas no canto junto da porta, e por fim se voltou para a diminuta janela já iluminada, viu os galhos desnudos da acácia curvada diante dela, o teto afundado da casa dos Halics, a chaminé tombada, a fumaça que ela exalava, e disse: “Vou pegar a minha parte e vou embora hoje de noite mesmo!… O mais tardar amanhã. Amanhã de manhã”. “Ai, meu Deus!”, exclamou a seu lado a sra. Schmidt […]
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Copyright © 1985 by László Krasznahorkai
Ed. Companhia da Letras, 2022
Título original: Sátántangó
Capa: Guilherme Xavier
Imagem de capa: Mulher e Monstro, década de 1960, xilogravura impressa sobre papel de Manuel Messias dos Santos, 28 × 30,5 cm. Reprodução de Jaime Acioly.)
quinta-feira, 15 de maio de 2025
Memórias de sabores na ficção brasileira - Lançamento
O caldeirão já está fervendo. Vem que tem: Livro na Amazon
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
Gene Wolfe - O cheiro é a essência da comunicação
Epigrafias: Uma Antologia de Epígrafes: https://a.co/d/5oXczsZ
domingo, 16 de fevereiro de 2025
sábado, 15 de fevereiro de 2025
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025
Epigrafias - Herman Augusto Schmitz — LANÇAMENTO!!!
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✨ Epigrafias: Uma Antologia de Epígrafes
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2025
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
sábado, 1 de fevereiro de 2025
Miguel Ángel Asturias - Las cosas que pasan…
Miguel Ángel Asturias Rosales foi um renomado escritor e diplomata guatemalteco, nascido em 19 de outubro de 1899, na Cidade da Guatemala, e falecido em 9 de junho de 1974, em Madrid, Espanha. Ele é amplamente reconhecido como um dos principais expoentes da literatura latino-americana do século XX.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2025
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
terça-feira, 28 de janeiro de 2025
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
domingo, 26 de janeiro de 2025
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
domingo, 24 de novembro de 2024
Como escrevo - Paul Auster (trechos de entrevista a Michael Wood)
Como escrevo
Paul Auster (trechos de entrevista a Michael Wood da Paris Review)
ENTREVISTADOR
Vamos começar falando sobre seu método de trabalho. Sobre como o senhor escreve.
PAUL AUSTER
Sempre escrevi à mão. Quase sempre com uma caneta tipo tinteiro, mas às vezes a lápis — especialmente para fazer correções. Se fosse capaz de escrever direto no computador ou numa máquina de escrever, eu escreveria. Mas teclados sempre me intimidaram. Nunca consegui pensar direito com meus dedos naquela posição. Uma caneta é um instrumento muito mais primitivo. A gente sente as palavras saindo do corpo para, então, gravá-las na página. Escrever sempre teve esse caráter tátil para mim. É uma experiência física.
ENTREVISTADOR
E o senhor escreve em cadernos. Não em blocos ou em folhas avulsas.
AUSTER
Sim, sempre em cadernos. E tenho um fetiche em particular pelos cadernos quadriculados — aqueles com quadradinhos no lugar das linhas.
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Extraído de: The Paris Review Interviews
terça-feira, 12 de novembro de 2024
Café em Prosa - Cenas de café da manhã na literatura brasileira
Banquete Literário: Cenas de Café da Manhã na Literatura Brasileira
Este primeiro volume da coleção Banquete Literário convida você a saborear as manhãs de personagens da literatura brasileira. Cenas de Café da Manhã na Literatura Brasileira é uma seleção única de trechos literários que revela o início do dia de personagens em crônicas, romances e contos. Do café coado ao pão fresco, cada passagem traz detalhes que revelam hábitos e gostos — um retrato da vida doméstica e cotidiana de diversas épocas e regiões.
Organizado por Herman Augusto Schmitz, este volume faz parte de uma série dedicada a explorar como a culinária se reflete na ficção. Uma leitura deliciosa tanto para os apaixonados por literatura quanto para os curiosos sobre as tradições alimentares brasileiras. Em breve, outros volumes da coleção trarão cenas de almoços, jantares, festas e muito mais.
Prepare-se para mergulhar em uma viagem pela cultura alimentar do Brasil, através das palavras de nossos grandes autores!
sexta-feira, 11 de outubro de 2024
quarta-feira, 9 de outubro de 2024
sexta-feira, 27 de setembro de 2024
quarta-feira, 21 de junho de 2023
A Rosa Mística — Poemas de Cleber Pacheco - Posfácio de Herman Augusto Schmitz (2023)
25 anos de poesia
Antes de tudo quero agradecer ao amigo Cleber Pacheco pelo convite para fazer parte dessa sua bem vinda comemoração de aniversário poético de 25 anos de pratica e de sensibilidade.
Um livro
nunca está sozinho. São filhos que o autor cria com muito carinho. Sua obra já
considerável entre contos e romances, sempre se pontuou com a presença da
poesia. Sendo esta, a combinação das muitas faculdades necessárias para se
escrever em prosa, acrescida com a musicalidade em seu ritmo próprio, entre o
semântico e o fonético, com suas pausas e seus timbres, trazendo ao leitor
reflexões do seu eu-lírico.
Em seu
último livro de poemas "Poemas orgânicos", Cleber faz um mergulho no
corpo biológico, nas entranhas da vida e da natureza, e de onde ele renasce
rejuvenescido.
Em "A
Rosa Mística" o poeta perscruta a alma, o sentido do oculto, do alegórico
e do hermenêutico. Trazendo ao nível do leitor, reflexões com a autoridade de
quem pratica o espiritualismo, especialmente o oriental ao longo dos anos, e é
a essa sua voz interior, nascida da meditação e da contemplação, que
concordamos em ouvir no formato de uma poesia iniciática.
A rosa, por
sua cor de sangue derramado, já é um símbolo de renascimento místico. Podemos
contemplá-la como uma mandala ou um centro de força, como no símbolo Rosacruz, ou
a rosa de sete pétalas, cada uma evocando um metal. No caso dessa poética, esse
simbolismo floral é também o de uma manifestação de saída das águas primordiais,
acima das quais o poeta se eleva e abre a morada do seu ser.
Os círculos
da rosa, também simbolizam um final de processo, onde eliminou-se as arestas e
se mostra um produto final, com uma ordem de ideia, de simetria, de lógica e de
claridade.
Cleber Pacheco
consegue uma atmosfera anímica e afetiva, sem acentuar nenhuma corrente
gnóstica específica, pois nos deparamos com elementos do catolicismo, do
espiritismo, do paganismo e da espiritualidade oriental, em uma conjugação
ecumênica com uma linguagem poética de grande compressão no encadeamento dos
versos e uma cuidadosa pontuação, algo sempre arriscado em termos de poesia,
mas que aqui atuam como marcações precisas para o fôlego do leitor.
Espero que
esses versos tenham o alcance de público que ele merece, pois temos enfim, uma
cosmologia poética altamente espiritual, de grande auxílio nesses tempos em que
vivemos, entre tantas descrenças, materialismos e esse desmedido desprezo pela
essência humana.
Meus
parabéns e boa sorte!
Herman Augusto Schmitz
Poeta e Mestre em Letras – Estudos literários (UEL)
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A Rosa Mística
Cleber Pacheco (Poemas)
Editora Penalux (www.editorapenalux.com.br)
2023




































