A GUERRA (#7)
E no centro de um aglomerado de dez mil estrelas, cuja luz rasgava em pedaços a fraca escuridão que o circundava, orbitava o enorme planeta imperial, Trantor.
Mas era mais do que um planeta; era o pulsar vivo de um Império de vinte milhões de sistemas estelares. Tinha apenas uma função, administração; um propósito, governo; e um produto manufaturado, a lei.
O mundo inteiro era uma distorção funcional. Não havia nenhum ser vivo em sua superfície além do homem, seus animais de estimação e seus parasitas. Nenhuma folha de grama ou fragmento de solo descoberto podia ser encontrado fora dos 260 quilômetros quadrados do Palácio Imperial. Não havia água fora dos limites do Palácio, exceto nas vastas cisternas subterrâneas que armazenavam o abastecimento de água do mundo.
O metal brilhante, indestrutível e incorruptível que formava a superfície intacta do planeta era a base das enormes estruturas metálicas que o permeavam. Eram estruturas conectadas por vias elevadas; entremeadas por corredores; repletas de escritórios; com enormes centros comerciais no subsolo, que cobriam quilômetros quadrados; e com o deslumbrante mundo de diversões no topo, que ganhava vida a cada noite.
Seria possível percorrer o mundo inteiro de Trantor sem jamais sair daquele conglomerado de edifícios, nem sequer ver a cidade.
— Isaac Asimov.
Como as pessoas anseiam que a terra desapareça sob as cidades, para que nunca mais seja possível falar de árvores, plantas ou arbustos! Que chegue logo a camada de asfalto ou cimento que cobrirá toda a superfície! Nada mais de montanhas e lagos, nada mais de praias, nada mais de água, nada mais de rios, nada mais! Apenas cimento e asfalto por toda parte, além de concreto protendido. Já que a guerra que está destruindo os sonhos ancestrais avança rapidamente, não seria melhor acabar com tudo isso sem demora?
Florestas, rios, pastagens, grutas, vales: tudo agora é cidade! Postes verticais, valas cobertas, esplanadas, adegas, ruas. A cada dia, algo é arrancado na superfície da terra, no âmago do coração do homem. Basta de sofrimento! Que a natureza mude de nome: que agora ostente o nome de uma rua, um número, o símbolo de um quarteirão novinho em folha. Quanto aos que se opõem, aos que fecham os olhos e aos que fotografam uma folha de grama tremendo na brisa: que sejam todos esmagados pelos rolos compressores, que desapareçam pulverizados na boca da máquina de compactar!
Certo dia, por volta do meio-dia, em algum lugar da vasta cidade, a garota, Bea B., posiciona-se perto do cruzamento e contempla a interseção como se fosse um pôr do sol no mar, ou um bloco de gelo, ou um campo de trigo com corvos voando em círculos por cima, ou algo parecido.
Com o coração acelerado, ela se encosta na parede, sob o sol, e tenta entender o que realmente significa um cruzamento. Ela tenta enxergá-lo, além do medo, com um olhar que não é nem penetrante nem evasivo. Ela segue as linhas sinuosas com os olhos, estuda as superfícies planas, enumera todos os sinais, quer vencer a dúvida. No fundo do seu ser, uma palavra anseia ser dita. Ela diz, com a voz rouca e rouca:
‘Cruzamento… Cruzamento…’
É incomparavelmente mais belo que o mar, incomparavelmente mais vasto, com profundezas vertiginosas e lampejos de luz que ofuscam a visão. Há tanto movimento, tantos detalhes, que a garota mergulha num abismo, caindo por um longo tempo antes de emergir repentinamente. Ela está se afogando. Agora, paira no ar, suspensa por uma nuvem cinzenta. O mar não é nada. Ninguém jamais o viu. O infinito em toda a sua escuridão, florestas, desertos: nada disso existe mais. Tudo está contido neste cruzamento, o ponto de encontro mágico destes quatro vales que vieram de lugares desconhecidos e terminaram aqui, neste local, neste fórum em forma de cruz.
A luta certamente deve ter começado neste mesmo lugar. Todas as disputas deste e de outros mundos escolheram esta paisagem, dentre tantas outras, como seu campo de batalha.
Há tanta coisa aqui que é difícil saber por onde começar. Em primeiro lugar, há esta estrada de macadame preto, com seus milhões de minúsculos grânulos de pedra incrustados no magma do asfalto. Uma massa solidificada, ligeiramente convexa em direção ao centro, que se estende infinitamente ao longo das quatro vias. É um fluxo de lava, mas um fluxo tranquilo que nunca ferve ou explode, um rio congelado com inúmeros braços, pressionando sua crosta com força contra a superfície da Terra.
Os pneus dos veículos passam com um som líquido sobre a estrada escura. Às vezes, a crosta cede sob o peso de um caminhão ou derrete com o calor do sol de verão, e então chegam homens baixinhos vestidos de azul com máquinas e tapam o buraco. Aqui e ali, remendos são visíveis, manchas acinzentadas no asfalto, e as rodas dos carros que passam batem sobre elas.
A estrada negra é nova. Ela jamais terá fim. A luz do céu não consegue penetrar seu brilho opaco. A chuva, quando cai, escorre por ela e desce pelas encostas em direção às sarjetas. O vento, quando sopra, não levanta ondas, mas desliza sobre a superfície dura, levantando montes de poeira e papéis engordurados, para então correr pela estrada e ser engolido pelos corredores das ruas laterais. No centro do cruzamento, há um ponto invisível de onde brotam redemoinhos.
Bea B. está estudando o cruzamento, tentando entender como os quatro rios de asfalto se encontram e em que direção correm. Mas eles não seguem para um lado nem para o outro. Seguem em todas as direções ao mesmo tempo, alcançando a borda do universo em um único segundo. A massa negra e sólida, sem velocidade, sem paixão, que constitui o elemento primordial da cidade; o chão pulsante além do qual não há nada. Tudo para aqui: a imaginação, a esperança, a violência, todos os segredos da guerra.
Bea B. recua, encostando as costas na parede da farmácia. Ela encara a rua com total concentração, desejando entrar nela, tornar-se uma encruzilhada. Ela estica o corpo sobre a superfície dura e negra, braços cruzados sobre o peito, e carros e passos de pessoas passam por cima dela.
Há também calçadas. Imagine faixas de cimento cinza, com cerca de trinta centímetros de altura, margeando a rua: margens tão calmas e planas quanto o próprio rio, acompanhando o contorno das casas. Na borda da calçada, a faixa de cimento é contida por uma espécie de degrau de pedra branca. Do lado esquerdo da rua número um, a calçada forma um ângulo e depois retoma uma linha reta. Mas do lado direito, no ângulo entre a rua número um e a rua número dois, a faixa de calçada se torna arredondada, e o degrau de pedra foi esculpido em um arco. Por que será assim? Será que a correnteza do rio de asfalto desgastou a ponta do ângulo, ou existe algum fator misterioso, na parede da casa, ou na natureza das coisas em geral, que exigiu o equilíbrio da assimetria?
Bea B. olha para o pavimento sob seus pés. Como o resto, permanece imóvel, uma superfície cinza e branca que se projeta acima do asfalto escuro. Este é o refúgio de pedestres e cachorros. É aqui que as crianças chegam, ofegantes, depois de correrem e pularem por todo o caminho, atravessando o oceano escuro da rua. O pavimento está inscrito com uma série de desenhos geométricos: quadrados traçados no cimento com uma régua. Quadrados para pular de um para o outro enquanto se caminha. Quadrados que enlouquecem quem tenta contá-los. Quadrados para evitar que as solas de borracha derrapem em dias de chuva. Quadrados para que as pessoas saibam que este é território humano, adornado com tatuagens. Por causa dos quadrados desenhados no pavimento, o leito negro da rua é um lugar de mau agouro onde a morte, o desconhecido e o desumano rondam.
Nesta encruzilhada, tudo é tão simples que nunca se deve pensar: como poderia ser diferente?
Bea B. observa todas as placas instaladas ao longo da calçada. Esses objetos na paisagem, imóveis como árvores ou rochas, são placas de proibido estacionar. Elas se erguem em cada lado do cruzamento, seus tubos de metal cinza encimados por discos pintados de azul e vermelho. E aqui e ali, no chão, estão as grelhas de bueiros, retângulos de ferro fundido preto onde, por anos, se acumularam resíduos. Em seus centros, uma roseta de metal moldado forma as letras S.E.V. ¹
Bea B. nota uma espécie de ilha curiosa no meio do cruzamento, um longo retângulo de cimento flutuando sobre a estrada escura. Em cada extremidade, a ilha termina em um círculo com borda de pedra que serve de base para uma torre luminosa que pisca. Acima da torre, à esquerda, uma placa diz: PORTO.
Bea B. não está absorta em pensamentos. Ela não tem tempo para pensar. Todo o seu tempo é ocupado em observar tudo o que está ligado ao cruzamento, todas essas linhas, todos esses volumes, todas essas cores. Ela os contempla como se fosse a última vez. Como se, depois dela, depois deles, nada mais pudesse existir ali. Uma alegria arrebatadora tomou forma sob o olhar do cruzamento, uma alegria que agora o anima. Tudo – a estrada escura, as paredes das casas, os movimentos dos veículos, os postes verticais, as luzes piscantes – é extremamente puro, violento e simples. Portanto, não há mais necessidade de pensar, de questionar o espaço vazio. O olhar encontra coisas, estratificações rígidas.
Como descrever? Era algo como a explosão que ocorre quando uma bola de fogo se abre repentinamente e lança raios de detritos calcinados. Uma explosão imobilizada, sem começo nem fim. Não era destrutiva. Não tinha origem. Estava ali, na cidade, com seus quatro braços farpados e seu núcleo inquieto: uma estrela, uma estrela.
Se o mundo realmente tem um centro, um umbigo, então este deve ser ele. Se o universo está realmente em processo de renascimento perpétuo, então este deve ser o ovo. Aqui está o ponto de impacto do aerólito ao mergulhar no campo de poeira. Aqui está o tipo de ferida purulenta que a lava lança na planície e que é chamada de Paricutin.
Bea B. observa a explosão, com as costas encostadas na parede branca da farmácia. Ela não tem mais medo. Os exércitos podem vir, mas ela não será esmagada sob suas botas assassinas. O cruzamento se estende, imenso e pacífico, como um rio que parou de correr. Nenhuma onda quebra. Não se vê paredes rachando e desmoronando sob a pressão da lama. Não se vê o céu se afastar rapidamente, deixando seu rastro terrível de espaço vazio.
Só se veem coisas que estão paralisadas pela luz do sol, suas sombras marcadas em preto no chão: postes de ferro, pernas de mulheres, rodas de carro. Um dia, talvez, a garota chamada Bea B. tenha penetrado a guerra tão profundamente que ela será como o olho de um ciclone: uma calma profunda e silenciosa que se abate sobre a terra, fazendo os ponteiros do barômetro oscilarem.
Ao longo das calçadas que margeiam o cruzamento, coisas acontecem: um homem entra num bar, passando de raspão pela máquina de sorvete expresso logo na entrada. Ele desaparece nas sombras azuis. Uma mulher e seu filho seguem as linhas da calçada até o ângulo, depois viram para a outra rua.
Há largas faixas amarelas que atravessam a rua. Pequenos grupos de pedestres cruzam-nas, enquanto os carros param de cada lado das faixas amarelas. Um senhor desce da calçada, em frente à farmácia. Ele olha para a esquerda e para a direita, depois caminha no centro das faixas amarelas. Quando chega ao refúgio com seus dois postes piscantes, ele levanta o pé direito e pisa na pequena ilha. Então, ele olha novamente para a esquerda e para a direita e desce para a rua mais uma vez. Primeiro, ele se move apressadamente, depois diminui o passo. Ele levanta a perna direita, como antes, e pisa na calçada oposta. Ele para ali por um instante, olhando vagamente para a direita, e então desaparece atrás da esquina da casa.
Estão acontecendo todos os tipos de coisas. Bea B. observa tudo, do seu ponto de vista em frente à farmácia. Homens de macacão descem de um caminhão grande. Crianças gritam enquanto correm umas atrás das outras. Uma mulher gorda, carregando uma sacola, olha para os telhados, inclina a cabeça para trás e grita com uma voz estridente:
'E aí!'
Ao lado do bar, a parede exibe uma série de inscrições: AÇOUGUE / BAR / MACCARI & FRANCO. Entre o açougue e o bar, há uma porta. Uma jovem surge de repente. Ela olha fixamente para a frente. Seu rosto é pálido, emoldurado por longos cabelos castanhos. Ela veste um casaco de plástico preto. Parada no degrau da porta, ela continua olhando fixamente para a frente. Depois de um tempo, um carro branco chega, dirigido por um jovem. A jovem atravessa a calçada e entra no carro. O carro branco parte e desaparece de vista.
Um homem vestido de preto acende um cigarro com um fósforo.
Um cachorro ruivo começa a latir.
Bea B. encara o cruzamento com os olhos arregalados. A luz é tão forte e tão branca que a garota se vê obrigada a colocar seus óculos escuros. Minutos não contam, nem horas. Nomes, palavras não têm importância. Não há senso de lugar. É como estar diante de uma geleira ou de uma alta montanha com cristas íngremes.
E então, lentamente, a ameaça se instala. É o cansaço, sem dúvida, ou então um medo misterioso que se apoderou de nós como uma doença.
Ondulações imperceptíveis surgem na estrada negra e convexa. Acima dos prédios, o céu se nubla. As largas faixas amarelas pintadas no asfalto começam a brilhar. Os postes de ferro fincados no chão emitem estrelas de perplexidade e tristeza. As tampas de bueiro, os quadrados no pavimento, todas as cicatrizes, os excrementos, os restos secos, as bitucas de cigarro se multiplicaram. Há séculos, as pessoas espalham esses restos pelo chão; há séculos, a poeira cai. O chamado das quatro estradas é um vento que fere o abdômen, um vento ofegante.
Bea B. observa o cruzamento com os olhos escondidos atrás de óculos escuros. Mas ela não vê o cruzamento. Ela vê o futuro, ali exposto, num lampejo, na superfície de asfalto, pintado nas paredes rebocadas, moldado nas placas de ferro fundido. O futuro chegou de uma só vez, engolindo todas as outras paisagens da Terra. Engoliu vastas praias de frente para o mar, desertos, falésias cinzentas, planícies de trigo e milho. Tudo isso desapareceu. Os quatro rios de asfalto correram de uma extremidade do mundo à outra e, então, petrificaram-se. As raízes dos postes de ferro alcançam o centro da Terra, o núcleo de metal fundido que nada pode extinguir. Motores correm loucamente, escondidos sob os capôs dos carros. Bondes disparam à frente, lançando chuvas de faíscas espessas.
Quem venceu a guerra? Mas é algo diferente de uma guerra. É algo mais prolongado e mais terrível, um movimento ininterrupto que ninguém conseguiu compreender. O fato de a garota estar diante da explosão, em um dia específico, ao meio-dia, com os olhos escondidos atrás de óculos escuros, significa que ela está em processo de compreensão. Algo varreu o universo. Mas não existem cidades de verdade, apenas minúsculos compartimentos semelhantes a células para esses insetos. Quem se preocupa com as cidades? Isso é outra questão. Está na mente de Bea B., e ao mesmo tempo transcende o tempo e o espaço. É uma história de vida e morte, uma história de amor; e também é uma história boba, uma fábula para lagartas e peixinhos dourados.
Bea B. observa o cruzamento, tão próximo, mas tão estranho, porque também é o seu próprio rosto. Ela sabe que é aqui, no desenho abstrato dessas paredes e calçadas, que o segredo de sua consciência está desvendado. Se, algum dia, ela viesse a compreender a razão da existência dessas placas de proibido estacionar, desses quadrados traçados no chão cimentado, desses ângulos, dessas listras amarelas pintadas no rio negro de asfalto, então talvez ela finalmente entendesse quem ela é, até a última de suas células.
Depois de observar bem o cruzamento, Bea B. foi embora. Mas disse a si mesma que deveria voltar lá com frequência, para fazer um pouco de turismo sempre que, onde quer que, quatro estradas se encontrassem.
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¹. S.E.V. nas tampas de bueiros em Paris refere-se ao Service des Eaux de Versailles et du Grand Parc, uma entidade histórica responsável pela gestão de águas e saneamento na região oeste de Paris, incluindo áreas como Sèvres e Versalhes. Essa marcação aparece em equipamentos antigos de drenagem e esgoto, ligados à infraestrutura hidráulica do século XIX, ainda visíveis em ruas parisienses.
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Título original: La Guerre (1970)
Tradução: H. A. Schmitz (com G. Translator)
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Jean-Marie Gustave Le Clézio, nascido em 13 de abril de 1940 em Nice, França, é um proeminente escritor francês descendente de uma família bretã que emigrou para a Ilha Maurício no século XVIII. Ganhou notoriedade aos 23 anos com o romance Le Procès-verbal (1963), que lhe rendeu o Prix Renaudot, e em 2008 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por sua obra inovadora, descrita como uma "aventura poética e êxtase sensual, exploradora de uma humanidade além e abaixo da civilização dominante". Sua carreira literária divide-se em fases: a inicial (1963-1975), marcada por experimentações formais sobre loucura e linguagem, influenciada pelo nouveau roman, e uma posterior focada em viagens, culturas indígenas (como maias e emberás) e mundos primitivos, refletidos em livros como Désert (1980) e Le Rêve mexicain (1988). Nômade e imerso em estudos antropológicos, Le Clézio lecionou em universidades globais e continua a publicar. Lançou mais de 40 obras, incluindo romances, ensaios e livros infantis, sempre com ênfase na adaptação cultural e na nostalgia de civilizações perdidas.