quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Clube do Haxixe — O Homem do Haxixe por Lord Dunsany

Esta série "Clube do Haxixe" é dedicada a postar contos relacionados com o tema das drogas em geral. 


O Homem do Haxixe

por Lord Dunsany







No outro dia, eu estava participando de um almoço em Londres. As senhoras haviam se retirado para o andar de cima, e ninguém estava sentado à minha direita; à minha esquerda estava um homem que eu não conhecia, mas que evidentemente sabia meu nome, porque após um tempo ele se virou para mim e disse:

"Li uma das suas reportagens sobre Bethmoora em uma revista."

Claro, eu me lembrava da história. Era a história de uma bela cidade do leste que foi repentinamente abandonada um dia, ninguém sabe por quê. Eu respondi:

Ah, sim! — e eu, calmamente, busquei em minha mente alguma fórmula de reconhecimento mais apropriada ao elogio que sua memória me dedicara.

Mas fiquei surpreso quando ele me disse: "Você está enganado sobre a doença gnosar; não era nada disso."

Eu respondi: "O quê? Você já esteve lá?"

E ele disse: “Sim; às vezes vou lá com haxixe. Conheço Bethmoora muito bem.” E tirou do bolso uma pequena caixa cheia de uma substância preta como piche, mas com um cheiro estranho. Avisou-me para não a tocar com os dedos, porque a mancha duraria muitos dias. “Um cigano me deu”, disse ele. “Ele tinha uma certa quantidade, porque foi o que acabou matando seu pai.” Mas eu o interrompi, pois ansiava por saber com certeza por que Bethmoora, a bela cidade, havia sido abandonada e por que todos os seus habitantes haviam fugido dela repentinamente em um único dia. “Foi por causa da maldição do Deserto?”, perguntei. E ele disse: “Foi em parte a ira do Deserto e em parte o aviso do Imperador Thuba Mleen, pois essa besta terrível estava, de certa forma, relacionada ao Deserto por meio de sua mãe.”

E ele me contou esta estranha história: “Você se lembra do marinheiro com a cicatriz negra que estava em Bethmoora no dia que você descreveu, quando os três mensageiros chegaram montados em mulas no portão da cidade e todos fugiram? Eu encontrei esse homem em uma taverna bebendo rum, e ele me contou sobre o êxodo de Bethmoora, mas não sabia do que se tratava a mensagem nem quem a havia enviado. No entanto, ele disse que queria ver Bethmoora novamente, na próxima vez que atracasse em um porto do Oriente, mesmo que tivesse que lidar com o próprio diabo. Ele costumava dizer que queria ficar cara a cara com o diabo para descobrir o mistério que esvaziou Bethmoora em um único dia. E, finalmente, ele acabou encontrando Thuba Mleen, cuja ferocidade refinada ele não havia imaginado. Mas um dia o marinheiro me disse que havia encontrado um navio, e eu nunca mais o vi na taverna bebendo rum. Foi por volta dessa época que o cigano me deu o haxixe, do qual ele tinha um excedente.” Literalmente te tira de si mesmo. É como asas. Você voa para terras distantes e entra em outros mundos. Certa vez, descobri o segredo do universo. Esqueci qual era, mas sei que o Criador não leva a Criação a sério, porque me lembro Dele sentado no Espaço diante de toda a Sua obra, rindo. Vi coisas incríveis em mundos terríveis. Assim como sua imaginação o leva até lá, somente pela imaginação você pode retornar. Certa vez, encontrei no éter um espírito cansado e errante que pertencera a um homem morto por drogas cem anos antes, e ele me levou a regiões que eu jamais imaginara; nos separamos com raiva além das Sete Irmãs, e eu não conseguia imaginar o caminho de volta. E encontrei uma enorme forma cinzenta, que era o espírito de um grande povo, talvez de uma estrela inteira, e implorei que me mostrasse o caminho de casa. Ela parou ao meu lado como um vento repentino e apontou, e falando muito suavemente, perguntou-me se eu conseguia distinguir uma certa luzinha ali. Vi uma estrela fraca e distante, e então ela me disse: "É o Sistema Solar", e partiu com tremenda velocidade. Imaginei, da melhor forma possível, o caminho de volta, e no tempo exato, pois meu corpo estava prestes a ficar rígido na cadeira do meu quarto. O fogo havia se apagado, tudo estava frio, e eu tinha que mover todos os dedos um por um, e sentia formigamento e dores terríveis nas unhas, que começavam a descongelar. Finalmente, consegui mover um braço e alcançar a campainha, e ninguém apareceu por um longo tempo, porque todos estavam na cama. Mas depois, um homem apareceu e trouxeram um médico. E ele disse que era envenenamento por haxixe; mas tudo teria corrido perfeitamente se ele não tivesse encontrado o espírito errante e cansado.

"Eu poderia contar coisas incríveis que vi; mas você quer saber quem enviou a mensagem para Bethmoora. Bem, foi Thuba Mleen."

"Foi assim que eu soube. Depois daquele dia que você descreveu, eu costumava ir à cidade com frequência (eu fumava haxixe todas as noites em casa) e sempre a encontrava deserta. As areias do deserto haviam invadido a cidade, as ruas estavam amarelas e planas, e nas entradas abertas, que batiam contra o ar, havia pilhas de areia."

"Certa tarde, eu estava de vigia junto à lareira e, acomodado numa cadeira, mascava meu haxixe; e a primeira coisa que vi ao chegar em Bethmoora foi o marinheiro com a cicatriz negra, caminhando pela rua, deixando suas pegadas na areia amarela. E então compreendi que estava prestes a presenciar o poder secreto que mantinha Bethmoora desabitada."

"Vi que o deserto se enfureceu, pois nuvens tempestuosas se formavam no horizonte e o bramido da areia podia ser ouvido."

O marinheiro caminhava pela rua, espiando as casas vazias; às vezes gritava, às vezes cantava, ou escrevia seu nome em uma parede de mármore. Depois, sentava-se em um degrau e comia sua ração. Após algum tempo, entediou-se com a cidade e voltou a subir a rua. Ao chegar ao portão de cobre verde, três homens apareceram montados em camelos.

"Eu não podia fazer nada. E eu não era nada mais do que uma consciência invisível e errante; meu corpo estava na Europa. O marinheiro se defendeu bem com os punhos; mas no fim foi subjugado, amarrado com cordas e internado no deserto."

"Eu os segui até onde pude e vi que estavam indo pela Estrada do Deserto, contornando as montanhas de Hap, em direção a Utnar Vehi, e então soube que os homens com os camelos pertenciam a Thuba Mleen."

"Eu trabalho o dia todo em uma seguradora, e espero que você não se esqueça de mim se quiser contratar algum seguro de vida, incêndio ou automóvel; mas isso não tem nada a ver com a minha história."

"Eu estava impaciente, ansioso para voltar para casa, embora não seja saudável tomar haxixe dois dias seguidos; mas eu ansiava por ver o que fariam com o pobre homem, pois ouvira rumores ruins sobre Thuba Mleen. Quando finalmente me libertei, precisei escrever uma carta; então chamei meu criado e ordenei que ninguém me incomodasse; mas deixei a porta aberta por precaução. Depois, acendi uma boa fogueira, sentei-me e tomei um gole do pote dos sonhos. Estava a caminho do palácio de Thuba Mleen."

"Os ruídos da rua me interromperam mais do que o habitual, mas de repente senti-me elevado acima da cidade; os países da Europa passaram rapidamente abaixo de mim, e à distância apareceram as torres esbeltas e brancas do palácio de Thuba Mleen. Encontrei-o imediatamente no fundo de uma pequena e estreita câmara. Uma cortina de couro vermelho pendia atrás dele, e nela estavam bordados com fios de ouro todos os nomes de Deus escritos em yannês. Havia três pequenas janelas no alto. O Imperador devia ter vinte anos, e era baixo e magro. Um sorriso nunca apareceu em seu rosto pálido e sujo, embora estivesse constantemente sorrindo de orelha a orelha. Quando meu olhar percorreu sua testa funda até seu lábio inferior trêmulo, percebi que havia algo horrível nele, embora eu não conseguisse discernir o quê. Então notei: aquele homem nunca piscava; e, embora mais tarde eu tenha observado aqueles olhos atentamente para flagrar um piscar de olhos, nunca consegui."

“Então, segui o olhar absorto do Imperador e vi o marinheiro estendido no chão, vivo, mas horrivelmente dilacerado, e os torturadores reais exerciam sua magia ao seu redor. Arrancaram longas tiras de pele de seu corpo, sem as separar completamente, e torturavam as pontas dessas tiras a uma distância considerável do marinheiro.” O homem que encontrei na refeição me contou muitas coisas que devo omitir. “O marinheiro gemia baixinho, e a cada gemido, Thuba Mleen sorria. Eu não tinha olfato, mas podia ouvir e ver, e não sei o que era mais ultrajante: a terrível condição do marinheiro ou o rosto feliz e impassível da horrível Thuba Mleen.”

"Eu queria fugir, mas a hora ainda não havia chegado e eu tive que permanecer onde estava."

"De repente, o rosto do Imperador se contorceu violentamente e seu lábio tremeu rapidamente, e, chorando de raiva, ele gritou em Yannis com voz rouca para o capitão dos torturadores que havia um espírito na câmara. Eu não tive medo, pois os vivos não podem tocar em um espírito, mas todos os torturadores ficaram aterrorizados com sua ira e interromperam seu trabalho, pois suas mãos tremiam de horror. Então, dois lanceiros saíram da câmara e logo retornaram com duas tigelas de ouro transbordando de haxixe; as tigelas eram tão grandes que cabeças poderiam flutuar nelas se estivessem cheias de sangue. E os dois homens rapidamente se lançaram sobre elas e começaram a comer com grandes colheradas; cada colherada seria suficiente para alimentar cem homens. Logo caíram em um estado induzido pelo haxixe, e seus espíritos, suspensos no ar, preparavam-se para voar livremente, enquanto eu permanecia horrivelmente aterrorizado; mas de tempos em tempos eles retornavam aos seus corpos, chamados por algum ruído na sala. Eles ainda estavam comendo, mas agora preguiçosamente e sem entusiasmo. Por fim, as grandes colheres caíram de suas mãos, e seus espíritos se elevaram e os abandonaram. Mas eu não podia fugir. E os espíritos eram ainda mais horríveis que os homens, porque os homens eram jovens e ainda não tinham tido tempo de se moldar às suas almas terríveis. O marinheiro ainda gemia baixinho, causando leves tremores no Imperador Thuba Mleen. Então, os dois espíritos avançaram sobre mim e me arrastaram como rajadas de vento arrastam borboletas, e nos afastamos do pequeno, pálido e odioso homem. Era impossível escapar da insistência feroz dos espíritos. A energia do meu minúsculo pedaço da droga foi superada pela enorme colherada que aqueles homens haviam comido com as duas mãos. Fui arremessado como um furacão sobre Arvle Woondery e levado às terras de Snith, e através delas até Kragua, e além, até as terras pálidas e quase esquecidas da fantasia. Chegamos, enfim, àquelas montanhas de marfim chamadas Montanhas da Loucura. E tentei lutar contra os espíritos dos súditos daquele temível Imperador, pois ouvi, além das montanhas de marfim, os passos das feras cruéis que atacam os loucos, caminhando incessantemente de um lado para o outro. Não era minha culpa que meu pequeno pedaço de haxixe não conseguisse lutar contra sua horrível colherada...

Alguém tocou a campainha. Nesse instante, um criado entrou e disse ao nosso anfitrião que um policial estava no hall e queria falar com ele imediatamente. Ele pediu nossa permissão, saiu e ouvimos um homem de botas pesadas falando com ele em voz baixa. Meu amigo se levantou, foi até a janela, abriu-a e olhou para fora. "Devo ter pensado que seria uma bela noite", disse ele. Então, pulou para fora. Quando olhamos pela janela, atônitos, ele já havia desaparecido.

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O romancista, dramaturgo e ensaísta Edward John Moreton Drax Plunkett (1878–1957), conhecido nos círculos literários como Lord Dunsany por seu título nobiliárquico, alcançou popularidade graças a uma série de coletâneas de contos publicadas entre 1905 e 1916, que constituem a primeira etapa de sua carreira criativa. Como observou Jorge Luis Borges, Lord Dunsany era, acima de tudo, "o criador de um universo arrebatador, um reino pessoal, que era para ele a essência íntima de sua vida". A originalidade de sua imaginação audaciosa e o exotismo de seus enredos (que correspondem à descoberta da arte e das ideias indianas e islâmicas pelos intelectuais britânicos da época) combinam-se com a elegância de uma prosa de rara musicalidade, influenciada por Oscar Wilde e William B. Yeats.

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Título Original: The Hashish Man (1910)
Tradução: H. A. Schmitz (com G. Translator)

Contos Únicos - O Anúncio por Nugent Barker

Esta série tem como objetivo oferecer algumas histórias que, embora quase totalmente desconhecidas hoje em dia (mesmo em seus países de origem, até mesmo para os fãs mais fervorosos do gênero), poderiam, ainda assim, rivalizar com muitas das obras mais célebres da literatura de fantasmas, terror ou fantasia. Seu único obstáculo para alcançar esse objetivo talvez tenha sido o fato de serem as únicas aceitáveis de cada autor.

O Anúncio

Por Nugent Barker






Por volta das três horas da tarde de um dia quente de agosto, um homem alto, com cara de estudioso, saiu de um beco e começou a caminhar sem pressa ao longo dessa importante artéria urbana, no meio do barulho do trânsito. As pessoas esbarravam nele a cada passo, e então ele levantava-se do chão e pedia desculpa com os olhos.

Quando se apercebeu de que estava prestes a entrar na Biblioteca Pública, um sorriso amargo espalhou-se pelo seu rosto, e ficou parado por um momento, olhando para as duas manchas solares espelhadas nos seus sapatos. A força do hábito tinha-o levado até ali, a meio das escadas da biblioteca. O sítio onde tinha pensado ir era cem metros mais à frente, na mesma rua.

De repente, deu por si no balcão onde se devolvem os livros e se pagam as multas. O rosto familiar da jovem sorriu-lhe com os seus lábios cheios e ele sentiu-se reconfortado. Apressou-se a sorrir de volta e disse:

"Não estou aqui para devolver nenhum livro, mas para levar alguns" disse ele, e depois passou mais de uma hora a folhear livros.

Começou por folhear as prateleiras de ficção. Austen, Balzac, Chekhov, Conrad, Flaubert - nomes que, naquela tarde quente em que cada minuto parecia uma hora, e toda a sua mente aguardava em suspense, lhe traziam vividamente à memória personagens e cenas com as quais tanto se divertira, e a certeza de que voltariam a enchê-lo de prazer. Por vezes, um súbito impulso levava-o a tocar nalgum livro com os seus dedos finos; mas só quando chegou a Gautier é que retirou algum do seu lugar. E então, afastando-se das prateleiras, leu pela sexta ou sétima vez na sua vida a descrição da velha mansão do capitão Fracasse. A desolação da passagem ajustava-se perfeitamente ao seu estado de espírito. Volta a ouvir o coaxar das rãs no rio. Voltou a ver o telhado de telhas vermelhas, remendado como se tivesse lepra, as vigas contra as quais os morcegos batiam no seu voo, as portadas partidas, a gruta povoada de estátuas no jardim coberto de ervas daninhas. E, minutos depois, voltou a vaguear sem rumo entre as prateleiras da biblioteca. Refrescou o seu coração com nomes como Singapura, Macassar ou Carimata. Ouviu a música de amor apaixonado que Freya Nelson - ou Nielsen - tocava numa das Sete Ilhas.

O estado de espírito que o levava a abrir este ou aquele livro mudava rapidamente de direção. Em breve estava à procura de outra atmosfera, de outro autor, e escolhia-os com um discernimento seguro. Deixou Conrad e depois procurou a paisagem abrupta de O Duelo, de Tchekhov. As personagens tinham saído para fazer um piquenique no campo e as sombras do crepúsculo já se aproximavam. Pedras espalhadas pelo prado serviam de assentos; uma manta de viagem estava estendida no chão e uma fogueira ardia. À sua volta, altas montanhas erguiam-se contra o céu. Formavam uma moldura imponente que parecia manter à distância os nervos frágeis e em frangalhos dos caminhantes.

A seção de empréstimos era vasta e fria; além das janelas voltadas para o oeste, um jardim brilhava ao sol. O homem vagava silenciosamente de livro em livro. Às vezes, seus pensamentos se voltavam para assassinatos, roubos e estranhas invenções relacionadas à morte. Noites em que a arte sombria do romance policial tinha um efeito sedativo sobre ele, permitindo-lhe cair num sono profundo. Tais eram as histórias que ele agora começava a folhear. Nervosamente, virava as páginas grossas, lendo os títulos sugestivos dos capítulos. E, durante todo o tempo, uma expressão de angústia, não isenta de horror, contorcia seu rosto.

Das prateleiras de ficção, ele se dirigiu às de "outros gêneros", e sua mão pálida, brilhando à luz do sol, puxou um exemplar do Livro dos Criminosos Notáveis de H. B. Irving. Certa vez, cogitara a ideia de publicar um livro como aquele, ou de escrever para alguém como o Reverendo Selby Watson, que numa tarde de domingo matara a esposa num acesso de melancolia. E lá estava também o Dr. Castaing, que, com seu rosto comprido e feições tão regulares, o cabelo penteado para trás, a testa alta e aqueles olhos caídos, parecia mais um padre do que um médico. O leitor ergueu os olhos e, na prateleira acima, descobriu A História dos Cardeais Ingleses; e, cobrindo-lhes a boca ou os olhos com a mão fina, estudou atentamente aqueles rostos clericais.

As biografias o entretiveram por um bom tempo. Ele lia sobre músicos, artistas, inventores, exploradores; até que, de repente, sentiu um desejo incontrolável por mapas e geografia, por livros de viagem, especialmente aqueles sobre as vastas planícies do interior da Inglaterra e descrições de condados que nunca visitara. Encontrou um sobre Rutland e folheou uma página sobre suas paisagens típicas; encontrou e examinou outro sobre as cidades do Vale do Tâmisa e observou atentamente suas ilustrações… a da antiga ponte, por exemplo, atravessando as profundas planícies…

Voltando às prateleiras de ficção, ele procurou os romances que sempre quisera ler, mas nunca lera: A Cartuxa de Parma, de Stendhal; Pais e Filhos, de Turgenev; as sátiras de Erewhon, de Samuel Butler; os contos do Conde de Gobineau; e muitos outros. Não os pegou para se aprofundar na leitura. Contentava-se em contemplar os títulos. Ali estava o segundo volume de O Vermelho e o Negro; estava lendo o primeiro, pois o tinha em casa; em algumas passagens, na sutil mudança de uma frase, conseguira até mesmo adivinhar o terrível final. E, passeando pensativamente pelas prateleiras, chegou a Merrick. Gostava muito de Merrick. Conrad em Busca da Juventude era um de seus livros favoritos. Mas o livro não estava onde deveria estar e, de repente, enquanto encarava a prateleira vazia onde a busca pela juventude deveria estar, sua boca secou e um gosto amargo persistiu em seu paladar, fazendo-o estremecer. Ele apressou-se em direção ao balcão de saída. A jovem sorriu para ele com seus lábios carnudos; seus óculos admiravelmente redondos refletiam a luz do sol, obscurecendo seus olhos.

“Não peguei nenhum livro”, disse ele com voz grave, e saiu para o hall de entrada. Na parede havia uma placa de mármore; nela, ele leu o nome de um dos antigos prefeitos, um nome que, por dias e dias depois, continuaria a ecoar em sua mente. Algumas crianças vieram correndo e gritando da rua. Elas carregavam livros debaixo do braço. Esbarraram nele e desapareceram pela porta da Seção Infantil.

Ele aventurou-se por um corredor que levava a uma escadaria, sem saber para onde ia. Naquele túnel mal iluminado, viu uma estante robusta, reforçada por grossas vigas. Enormes tomos do The Times estavam enfileirados nela, cada volume cobrindo um ano. Num acesso de raiva, pegou um deles e, segurando-o com os dois braços, carregou-o com mais facilidade do que esperava até uma mesa na Sala de Leitura. Lá, folheou aquelas páginas amareladas que deviam ter sido brancas como linho uns cinquenta anos antes. Nunca tinha visto aquele anúncio. Será que sua mãe o guardara? Será que suas mãos o preservaram?

WARRINGTON-COOMBE: Em 10 de agosto de 1885, no número 41 da Rua Durham, em Fulham, MARY, esposa de R. H. Warrington-Coombe, deu à luz um filho.

Ao pé da escadaria da biblioteca, um bebê em um carrinho o encarava com seu rosto feio e enrugado. Ensurdecido pelo trânsito, ofuscado pelo sol, ele caminhou desafiadoramente pela multidão. Estavam construindo uma nova ala em um prédio de lojas de departamentos, e ele ouviu as marteladas dos operários erguendo os andaimes. Quando finalmente entrou no prédio que pretendia visitar primeiro, seus joelhos tremeram e ele sentiu frio. O policial sentado atrás de uma mesa em uma sala vazia com cheiro de tinta olhou para o homem com olhos tão azuis quanto benevolentes. Então, enquanto estudava as mãos e a boca do visitante, escutou-o.

"Meu nome é John Warrington-Coombe", disse o homem que saiu da biblioteca. "Moro na Rua Durham. Morei lá a vida toda."

Então ele umedeceu os lábios com a língua e a mesa tremeu por um instante.

"Vim me entregar", murmurou ele com a voz rouca. "Matei minha mãe."

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Título original: The Announcement (1939)

Tradução: H. A. Schmitz (com Google Translator)

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NUGENT Barker (1888) nasceu em Londres e está hoje tão esquecido que nem sequer se sabe quando morreu. Nas décadas de 1920 e 1930, no entanto, era bem conhecido, contribuindo com histórias para numerosas revistas como The Cornhill, The Fortnightly Review, Life and Letters e The London Mercury. Os seus livros, se é que existiram, são ainda menos recordados do que os seus contos, ou talvez os seus contos sejam tão pouco recordados precisamente porque não constituíram livros.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Aberturas célebres — Um Conto de Duas Cidades


Virtuosismo paradoxal…

"Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário — em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas de suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação."

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Charles Dickens

Um Conto de Duas Cidades

1859


domingo, 12 de outubro de 2025

1.000 PALAVRAS — Que Mistério tem Clarice? Sérgio Abranches



1

Susto definitivo

Há sustos que são definitivos. Deixam uma pequena bola de gelo perene incrustada naquela parte da alma que fica na altura do estômago. O susto a pegou já na rua, quando deixou o prédio. De repente, o mundo desapareceu em uma nuvem tempestuosa de dúvidas. Perdeu o rumo naquela neblina espessa e foi então que sentiu a pequena bola de gelo congelar o ponto crucial do miolo de seu ser.

— Quanto tempo?

— Um ano… dois… até cinco — respondeu seu médico pessoal, Luiz Rémy, com anuência do dr. Rabello, o especialista.

— Como são os tratamentos?

Quem respondeu desta vez foi o dr. Rabello:

— Em alguns casos recorre-se a cirurgias cada vez mais agressivas, para tentar eliminar o máximo de tecido canceroso. Mas não atende as suas condições. Radioterapia pode ajudar a reduzir o tumor e o ritmo de crescimento nos casos de detecção precoce. Não é o que estamos vendo. O caminho recomendado é a quimioterapia.

— Quanto tempo sem limitações que me aprisionem a uma cama ou cirurgias invasivas e mutilações? Falo de tempo ativo, consciente, mobilidade, lucidez, autonomia, livre-arbítrio.

— É um prognóstico difícil, mas há casos de cura e temos meios de melhorar sua qualidade de vida. Um ano, um ano e meio, dois anos, até cinco — Rémy continuou. — É imprevisível. Há muitos riscos. Com muitos cuidados e períodos menos ativos, de fraqueza, é possível garantir a qualidade de vida e até mantê-la por alguns anos. Há casos de pessoas que sobreviveram mais de cinco anos. Mas a localização do seu tumor e o estágio em que ele está tornam as coisas mais difíceis. Precisamos montar uma estratégia. A responsabilidade maior do tratamento será do Rabello, que é o oncologista. Como seu clínico e médico pessoal, acompanharei todo o processo.

— Não quero, não desejo, não posso ficar… ser mantida sem condições de vida ativa, digna.

— É um direito seu. Tudo depende de como a doença vai progredir. Às vezes, ela se torna dolorosa e seria necessário estabelecermos um procedimento para controle da dor, que pode exigir opiáceos. Minha preferência é sempre pela morfina. É possível fazer esse controle sem necessidade de internação, sem que você precise ficar permanentemente sob o efeito da droga.

— Se isso acontecer, interrompa todo tratamento que prolongue minha vida. Deixe-me ir…

— Farei o máximo para atender à sua vontade, dentro do que a lei permite e a ética aconselha.

— Não há possibilidade de que não sejam esses o diagnóstico e o prognóstico?

— Não. Mas você tem direito a uma segunda opinião, a quantas opiniões quiser. Posso lhe indicar os melhores, em São Paulo, nos Estados Unidos, na França. Não somos infalíveis, temos nossos limites.

— Não precisa. Não vou pesquisar o inevitável. Faremos como vocês disserem. — Ficou calada por um tempo. Os dois médicos respeitaram seu silêncio. — Rémy, qual o seu prognóstico. Seja sincero, você me conhece. Já é dor extrema receber essa notícia. Pior seria não ter ideia de quanto tempo ainda me resta…

— Um ano e meio… dificilmente mais que dois anos.

Ela olhou para o dr. Rabello:

— É este o meu prognóstico também.

Deixou o consultório sem pensar muito no que haviam falado. Quando saiu do vestíbulo sombrio para o dia ensolarado e ameno do outono carioca, o susto a pegou. Perdeu a noção de onde estava. O ar lhe faltou. Precisou encostar-se à parede do prédio para que a vertigem não a derrubasse. A frase que continha sua vida toda “Um ano e meio…” ecoava em sua cabeça. Não percebia mais o que fazia. Não viu quando acenou para um táxi, nem ouviu quando disse “Urca, por favor” ao motorista. Quando chegaram e o motorista lhe perguntou o endereço, disse “aqui”, sem pensar. Ele parou. Desceu do táxi, numa esquina duas quadras antes de sua casa, sem sequer se dar conta de ter pago a corrida. Fazia tudo como se estivesse hipnotizada, maquinalmente. Olhava sem enxergar. Caminhou até sua casa levada pelo instinto. Entrou. Atravessou a varanda e foi até o jardim interno. Ficou lá, parada. A titônia, amarela e exuberante, brilhava. Abelhas, vespas e borboletas pousavam em seus pistilos generosos. Mas Clarice não via aquela celebração outonal. O espanto a dominava e a única parte sensível de seu corpo era aquela na qual o gelo incorpóreo congelava sua alma e paralisava sua mente. Era toda susto. Demorou, nunca soube quanto, olhando para muito além do que Einstein chamou de delírios óticos da consciência cotidiana. Olhava o infinito e, pela primeira vez, conseguia vê-lo com toda a nitidez. Mirando-o de frente e em toda a sua extensão, o infinito não a amedrontava. Também não temia olhar para o marco que demarcava seu próprio fim no infindável. Saber que estava para chegar àquele destino, aos cinquenta e oito anos de idade, era um susto incomensurável. Mas não sentia medo. E foi a ausência do medo que a libertou daquele transe, fez o choque passar, deixando-a retomar o pensamento. A bolinha de gelo permanecia lá, onde se aconchegara, enviando ondas de frio por sua espinha. Ela não a deixaria esquecer que sabia agora o limite quase exato de sua vida.

Conseguia não ter medo. Mas não se livraria nunca da sensação desconhecida, desoladora e definitiva de que o termo de sua vida se aproximava célere. Foi-se o choque, ficou o susto. Este seria definitivo enquanto durasse. Pôde, afinal, pensar no que tinha pela frente. Vida abreviada. Queria dedicá-la aos amigos queridos e aos filhos, Jorge e Marina. Pensou com ternura neles. Tão diferentes e tão interessantes, cada um a sua maneira. E tinha uma decisão grave a tomar que havia se tornado inadiável. Seria muito mais difícil do que as relacionadas ao tratamento. Tratar-se era algo irrecusável, real e concreto. O que precisava resolver a obrigaria a atravessar o denso véu que cobria seu passado, até o decisivo momento que nunca havia pensado revisitar. Mas nele não habitavam apenas suas memórias, apagadas com firme precisão. Lá estava aquela que havia sido sua proteção e seu conforto em anos decisivos e que abandonara e fizera sofrer.

Aquela não havia sido sua primeira consulta com o médico Luiz Rémy, sobre o mal-estar diferente que havia começado a sentir. A primeira também havia sido penosa, embora amigável como sempre. Quando ligou para lhe contar dos incômodos, o médico disse que precisava vê-la, não era algo que pudesse resolver pelo telefone com um analgésico e um relaxante muscular. Ao entrar no consultório, o olhar de Rémy mostrou que suspeitava de algo mais grave. Pediu muitos exames e uma preocupante tomografia. Perguntou-lhe o que era. Ele respondeu que suspeitava de um tumor. Quis acalmá-la, suspeitas nem sempre se confirmam, disse. Mas ela conhecia a qualidade de seus diagnósticos. Ele pedia exames mais para confirmar que para saber. Na segunda consulta disse-lhe que tinha câncer no pâncreas, provavelmente em estágio avançado. Havia chamado o oncologista, Paulo Rabello. Foi quando tiveram a conversa que lhe provocou o maior susto da vida. O inesperado lhe fazia uma surpresa angustiosa, deixando sua alma em sobressalto. Choque sem medo que a afogou em um oceano de indagações.

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Que Mistério tem Clarice?

Sérgio Abranches

São Paulo: Editora Globo, 2014

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O ano é 2012. Clarice, escritora e professora bem-sucedida, recebe uma notícia inesperada. Tem um tumor maligno e só mais alguns meses de vida. Final dos anos 60. Uma adolescente sai de uma delegacia, em São Paulo, com o vestido encharcado de sangue. Seu rumo é a clandestinidade. Em 1972, uma moça chamada Amália visita cidades do interior de Minas Gerais, dizendo estar à procura de uma tia. Réveillon de 1978. Um casal de jovens amanhece nas areias de Ipanema sem saber que aquela noite mudaria suas vidas para sempre. O novo romance de Sérgio Abranches parte dos dias atuais para, numa viagem por tempos e paisagens distintas, narrar a história de uma mulher que acaba se confrontando com um passado que julgara esquecido. Numa trama que alia engenho e delicadeza, usa a ficção para abordar temas caros ao Brasil contemporâneo, como a culpa nos processos históricos, as faces movediças da verdade, o autoritarismo e a indiferença. Seu ponto de partida é a convivência de Clarice com os dois filhos. No momento em que ela recebe o diagnóstico, Jorge, o primogênito, está na África, fotografando. Marina está em uma cidade histórica da Boêmia, escrevendo reportagens de turismo. Logo eles se reúnem à mãe para desfrutarem momentos de cumplicidade, em longas conversas sobre literatura, filosofia e história. E é aí que se revela uma das características mais marcantes deste livro: a mistura de prosa e ensaísmo. Com referências a Kafka, Hemingway, Garcia Lorca, Hermann Hesse e Wittgenstein, os diálogos e pensamentos de Clarice dão vida a debates cheios de nuances, em busca de clareza. Com uma narrativa envolvente, o romance converge para um ponto central: qual é, afinal, o segredo de Clarice? Na teia que se desenha ao redor dessa pergunta, o autor cria um elogio à coragem, à alteridade e ao prazer de estar vivo. Ante a morte, a protagonista se volta, resoluta, para a celebração da vida e de suas contradições.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Primeiras Mil Palavras — Sátántangó de László Krasznahorkai


Aqui estão as primeiras 1k palavras deste romance escrito pelo húngaro László Krasznahorkai vencedor do prêmio Nobel de Literatura deste ano (2025). 

1. A notícia de que eles estavam chegando

Numa manhã do final de outubro, não muito antes que as primeiras gotas das chuvas impiedosamente longas de outono se desprendessem sobre a terra rachada, ressequida, do lado ocidental do assentamento (para que depois o mar pútrido de lama tornasse intransitáveis os caminhos, e também a cidade ficasse inacessível), Futaki despertou ao som de sinos. A quatro quilômetros de distância a sudoeste, nas antigas terras de Hochmeiss, existia uma capela solitária, porém lá não apenas não havia sino como a torre desabara no tempo da guerra, ao passo que a cidade, por sua vez, ficava muito afastada para que dela chegasse algum som. Além disso, o badalar plangente, triunfante, não lembrava sinos distantes, mais parecia que o vento o tinha trazido de bem perto (“Como se viesse do moinho…”) para aqueles lados. Ele apoiou os cotovelos no travesseiro para olhar pela janela minúscula da cozinha, mas através do vidro meio embaçado o assentamento, imerso no amanhecer azulado e no gemido dos sinos que aos poucos silenciaram, ainda estava mudo e inerte: no extremo oposto, entre as casas distantes umas das outras, somente pelas cortinas da janela do médico se filtrava uma luminosidade, nesse caso porque havia anos o morador não conseguia adormecer no escuro. Ele prendeu a respiração para, na vazante do estrépito dos sinos, não perder uma única ressonância extraviada, porque desejava saber a verdade (“Você com certeza ainda está dormindo, Futaki…”) e, para tanto, precisava de cada som, ainda que fosse singular. Com seus passos míticos, macios, de gato, ele se dirigiu, manquitolando sobre a pedra gelada da cozinha, à janela (“Não há ninguém acordado? Ninguém está ouvindo? Mais ninguém?”), abriu os painéis e se debruçou para fora. Um ar cortante, úmido, o golpeou, por um instante ele foi obrigado a fechar os olhos; e por conta do cacarejo dos galos, dos gritos distantes e do zunido agudo, implacável, do vento que minutos antes se alçara, no silêncio profundo de nada serviu aguçar os ouvidos, ele não escutou nada além das batidas surdas do próprio coração, como se tudo fosse uma brincadeira espectral da vigília (“… Como se alguém quisesse me assustar”). Contemplou tristemente o céu ameaçador, os restos queimados do verão cheio de gafanhotos, e de súbito viu passar pelo mesmo ramo de acácia a primavera, o verão, o outono e o inverno, como se sentisse de leve que na esfera imóvel da eternidade a totalidade do tempo gracejasse, enganando, ao superar os obstáculos da confusão reinante, a planura demoníaca, e, uma vez criadas as alturas, ele falseasse, de modo que parecesse inevitável, a loucura… e se viu no crucifixo sobre o berço e o caixão debatendo-se com dificuldade, para, por fim — sem braçadeiras nem condecorações —, se entregar, desnudo, a uma condenação explosiva, seca, nas mãos dos lavadores de mortos, para o riso dos coureiros incansáveis, em que ele depois se veria obrigado a reconhecer sem piedade a medida das coisas humanas, sem que uma única trilha o conduzisse de volta, porque nessa hora ele saberia que se metera com carteadores desonestos numa partida jogada desde bem antes, em cujo final eles lhe roubariam a última arma, a esperança de que voltaria a encontrar em algum momento o caminho de casa. Virou a cabeça para o lado, na direção das construções um dia cheias e barulhentas, hoje decrépitas e abandonadas, na parte oriental do assentamento, e observou amargurado os primeiros raios de sol inchados, vermelhos que irrompiam pelas frestas do teto do estábulo meio destelhado, quase em ruínas. “Afinal, preciso me decidir. Não posso ficar aqui.” Voltou para debaixo da colcha quente, apoiou a cabeça nos braços, mas não conseguiu fechar os olhos: os sinos espectrais o horrorizaram, porém não mais que o repentino silêncio, o mutismo ameaçador, porque sentiu que tudo poderia acontecer. Mas, como ele, nada se moveu na cama, até que entre os objetos silenciosos à sua volta iniciou-se de repente um diálogo (o armário estremeceu, uma panela trepidou, um prato de porcelana deslizou para seu lugar) e ele então de súbito se virou, deu as costas para o suor que escorria da sra. Schmidt, palpou com uma das mãos o copo de água junto da cama e o bebeu de uma vez. Com isso ele se libertou do medo infantil; suspirou, limpou a transpiração da testa e, como sabia que Schmidt e Kráner somente naquela hora tocariam os bois para levá-los do Szikes ao estábulo de Gazda, ao norte do assentamento, onde por fim eles receberiam o dinheiro amargo referente a nove meses de trabalho, e portanto um bom par de horas se passaria até que de lá chegassem em casa, decidiu que tentaria dormir mais um pouco. Fechou os olhos, virou-se de lado, abraçou a mulher, e quase tinha cochilado quando de novo ouviu os sinos. “Droga!” Levantou a colcha, mas no instante em que os pés descalços, calejados, tocaram o piso de pedra da cozinha, os sons de repente cessaram (“Como se alguém tivesse acenado para que parassem…”). Ficou sentado, encolhido na beirada da cama, com as mãos entrelaçadas no colo, em seguida seu olhar pousou no copo vazio: a garganta estava seca, o pé direito formigava, e ele não teve coragem de se deitar de novo nem de se levantar. “Vou embora, o mais tardar amanhã.” Examinou em sequência os utensílios ainda aproveitáveis da cozinha sombria, o fogão sujo de gordura queimada e restos de comida, a cesta de alça esgarçada debaixo dele, a mesa de pés bambos, os retratos empoeirados de santos na parede, as panelas e travessas amontoadas no canto junto da porta, e por fim se voltou para a diminuta janela já iluminada, viu os galhos desnudos da acácia curvada diante dela, o teto afundado da casa dos Halics, a chaminé tombada, a fumaça que ela exalava, e disse: “Vou pegar a minha parte e vou embora hoje de noite mesmo!… O mais tardar amanhã. Amanhã de manhã”. “Ai, meu Deus!”, exclamou a seu lado a sra. Schmidt […]

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Copyright © 1985 by László Krasznahorkai

Ed. Companhia da Letras, 2022

Título original: Sátántangó

Capa: Guilherme Xavier

Imagem de capa: Mulher e Monstro, década de 1960, xilogravura impressa sobre papel de Manuel Messias dos Santos, 28 × 30,5 cm. Reprodução de Jaime Acioly.) 

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Memórias de sabores na ficção brasileira - Lançamento

O caldeirão já está fervendo. Vem que tem: Livro na Amazon


Memórias de Sabores na Ficção Brasileira é um delicioso mergulho nos sabores da literatura nacional. Neste terceiro volume da coleção Banquete Literário, o pesquisador Herman Augusto Schmitz reúne excertos de romances brasileiros em que a comida desperta lembranças, afetos e identidades. São cenas que evocam o paladar da infância, dietas excêntricas, menus históricos, refeições no campo ou temperos trazidos por estrangeiros e culturas étnicas. Com prefácio de Alamir Aquino Corrêa, o livro apresenta uma curadoria cuidadosa, dividida em introduções temáticas como Família, Hábitos, Fome, Rural e outras. Muito mais que uma coletânea de trechos, esta obra é um convite à reflexão sobre a presença simbólica da alimentação na construção de personagens, tramas e territórios culturais. Leitura essencial para amantes da literatura, estudiosos da cultura e apaixonados pela arte de comer com palavras.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Jean Cocteau - Epigrafias

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Epigrafias - Herman Augusto Schmitz — LANÇAMENTO!!!


 

LANÇAMENTO !!! https://a.co/d/9X6oGpK

✨ Epigrafias: Uma Antologia de Epígrafes

Organizada com maestria por Herman Augusto Schmitz, esta obra reúne 1.300 citações escolhidas dentre mais de 5.000 livros para levar você por uma jornada única através do pensamento humano.

📚 O que você encontrará:

Curadoria inteligente: Blocos temáticos que conectam ideias – de Artes, Escritores & Livros a Amor & Romance, Natureza e muito mais!

Fragmentos culturais: Aforismos, versos e confissões que dialogam com mentes brilhantes como Shakespeare, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Oscar Wilde e tantos outros.

Inspiração para criadores: Ideal para leitores, escritores, designers e todos que buscam inspiração e novas perspectivas.

📱 Formato Kindle: Leve essa riqueza de sabedoria para qualquer lugar e marque suas citações favoritas com um clique!

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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Miguel Ángel Asturias - Las cosas que pasan…

Miguel Ángel Asturias Rosales foi um renomado escritor e diplomata guatemalteco, nascido em 19 de outubro de 1899, na Cidade da Guatemala, e falecido em 9 de junho de 1974, em Madrid, Espanha. Ele é amplamente reconhecido como um dos principais expoentes da literatura latino-americana do século XX. 



domingo, 26 de janeiro de 2025

domingo, 24 de novembro de 2024

Campos de Carvalho - Se eu fosse Deus


 

Samuel Beckett - Escritor


 

Baudelaire - Sobre os sonhos


 

Como escrevo - Paul Auster (trechos de entrevista a Michael Wood)

Como escrevo

Paul Auster (trechos de entrevista a Michael Wood da Paris Review)



ENTREVISTADOR

Vamos começar falando sobre seu método de trabalho. Sobre como o senhor escreve.

PAUL AUSTER

Sempre escrevi à mão. Quase sempre com uma caneta tipo tinteiro, mas às vezes a lápis — especialmente para fazer correções. Se fosse capaz de escrever direto no computador ou numa máquina de escrever, eu escreveria. Mas teclados sempre me intimidaram. Nunca consegui pensar direito com meus dedos naquela posição. Uma caneta é um instrumento muito mais primitivo. A gente sente as palavras saindo do corpo para, então, gravá-las na página. Escrever sempre teve esse caráter tátil para mim. É uma experiência física.

ENTREVISTADOR

E o senhor escreve em cadernos. Não em blocos ou em folhas avulsas.

AUSTER

Sim, sempre em cadernos. E tenho um fetiche em particular pelos cadernos quadriculados — aqueles com quadradinhos no lugar das linhas.

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Extraído de: The Paris Review Interviews

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Café em Prosa - Cenas de café da manhã na literatura brasileira

Café em Prosa 


Banquete Literário: Cenas de Café da Manhã na Literatura Brasileira

Este primeiro volume da coleção Banquete Literário convida você a saborear as manhãs de personagens da literatura brasileira. Cenas de Café da Manhã na Literatura Brasileira é uma seleção única de trechos literários que revela o início do dia de personagens em crônicas, romances e contos. Do café coado ao pão fresco, cada passagem traz detalhes que revelam hábitos e gostos — um retrato da vida doméstica e cotidiana de diversas épocas e regiões.

Organizado por Herman Augusto Schmitz, este volume faz parte de uma série dedicada a explorar como a culinária se reflete na ficção. Uma leitura deliciosa tanto para os apaixonados por literatura quanto para os curiosos sobre as tradições alimentares brasileiras. Em breve, outros volumes da coleção trarão cenas de almoços, jantares, festas e muito mais.

Prepare-se para mergulhar em uma viagem pela cultura alimentar do Brasil, através das palavras de nossos grandes autores!


Café em Prosa 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Francesco Alberoni - A inveja

 


Jawaharlal Nehru — O tempo da ciência e da espiritualidade

 


Donizete Galvão — Fachada (poema)

 


Fernando Pessoa — Saber que a vida é verdadeira

 



Eurípedes - Questione tudo


 

Carlos Drummond de Andrade - A ilusão do migrante

 


Carl Jung - O inferno das paixões

 




quarta-feira, 21 de junho de 2023

A Rosa Mística — Poemas de Cleber Pacheco - Posfácio de Herman Augusto Schmitz (2023)

25 anos de poesia

Antes de tudo quero agradecer ao amigo Cleber Pacheco pelo convite para fazer parte dessa sua bem vinda comemoração de aniversário poético de 25 anos de pratica e de sensibilidade.

Um livro nunca está sozinho. São filhos que o autor cria com muito carinho. Sua obra já considerável entre contos e romances, sempre se pontuou com a presença da poesia. Sendo esta, a combinação das muitas faculdades necessárias para se escrever em prosa, acrescida com a musicalidade em seu ritmo próprio, entre o semântico e o fonético, com suas pausas e seus timbres, trazendo ao leitor reflexões do seu eu-lírico.

Em seu último livro de poemas "Poemas orgânicos", Cleber faz um mergulho no corpo biológico, nas entranhas da vida e da natureza, e de onde ele renasce rejuvenescido.

Em "A Rosa Mística" o poeta perscruta a alma, o sentido do oculto, do alegórico e do hermenêutico. Trazendo ao nível do leitor, reflexões com a autoridade de quem pratica o espiritualismo, especialmente o oriental ao longo dos anos, e é a essa sua voz interior, nascida da meditação e da contemplação, que concordamos em ouvir no formato de uma poesia iniciática.

A rosa, por sua cor de sangue derramado, já é um símbolo de renascimento místico. Podemos contemplá-la como uma mandala ou um centro de força, como no símbolo Rosacruz, ou a rosa de sete pétalas, cada uma evocando um metal. No caso dessa poética, esse simbolismo floral é também o de uma manifestação de saída das águas primordiais, acima das quais o poeta se eleva e abre a morada do seu ser.

Os círculos da rosa, também simbolizam um final de processo, onde eliminou-se as arestas e se mostra um produto final, com uma ordem de ideia, de simetria, de lógica e de claridade.

Cleber Pacheco consegue uma atmosfera anímica e afetiva, sem acentuar nenhuma corrente gnóstica específica, pois nos deparamos com elementos do catolicismo, do espiritismo, do paganismo e da espiritualidade oriental, em uma conjugação ecumênica com uma linguagem poética de grande compressão no encadeamento dos versos e uma cuidadosa pontuação, algo sempre arriscado em termos de poesia, mas que aqui atuam como marcações precisas para o fôlego do leitor.

Espero que esses versos tenham o alcance de público que ele merece, pois temos enfim, uma cosmologia poética altamente espiritual, de grande auxílio nesses tempos em que vivemos, entre tantas descrenças, materialismos e esse desmedido desprezo pela essência humana.

Meus parabéns e boa sorte!

Herman Augusto Schmitz

Poeta e Mestre em Letras – Estudos literários (UEL)

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A Rosa Mística

Cleber Pacheco (Poemas)

Editora Penalux (www.editorapenalux.com.br)

2023