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Mostrando postagens de agosto, 2015

O Piano Coquetel — Boris Vian (fragmento)

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O PIANO COQUETEL - Quer um aperitivo? - perguntou Colin. - Meu pianoquetel está pronto, você pode experimentar. - Funciona? - perguntou Chick. - Perfeitamente. Foi difícil acertar o ponto, mas o resultado está além do que eu esperava. Consegui, a partir de "Black and Tan Fantasy", uma mistura realmente assombrosa. - Qual é o princípio? - perguntou Chick. - A cada nota - disse Colin - faço corresponder uma bebida, um licor ou um aromatizante. O pedal forte corresponde a um ovo batido, e o pedal doce, ao gelo. Para a soda, basta um toque no registro agudo. As quantidades são calculadas na razão direta da duração: à semifusa equivale um dezesseis avos de dose, à semínima uma unidade, à semibreve o quádruplo da dose. Quando tocamos uma peça lenta, aciona-se um sistema de registro de modo que a quantidade não seja aumentada, o que daria um coquetel grande demais, mas o teor de álcool, sim. E, de acordo com a duração da peça, podemos, se quisermos, fazer variar o va...

O Cético — H.L. Mencken

O HOMEM CÉTICO Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar piamente numa ideia, mas não em um homem. No mais alto grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida — uma sensação meio instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter um ás escondido na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é sempre mais do que justificada, porque ainda não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada — sua traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é o de que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas o de que tendem a ser confiantes demais — e de que ainda confiam demais em outros homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras coisas. Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age como se confiasse nele. Sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteira...

Capivaras — Manoel de Barros

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Capivaras por Manoel de Barros Tudo o que se há de dizer aqui sobre capivaras, nem as mentiras podem ser comprovadas. Se esfregam nas árvores de tarde antes do amor. Se amam sem ocupar beijos. Excitadas se femeiam por baixo dos balseiros. E ali se aleluiam. O cisco da raízes aquáticas e a bosta dos passarinhos se acumulam no lombo das capivaras. Dali se desprende ao meio dia forte calor de ordumes larvais . No lombo se criam mosquitos monarcas, daqueles de exposição, que furam até vidros e abaixam pratos de balança. É vezo de dizer-se então que capivara é um bicho insetoso. Porquanto favorecem a estima dos pássaros, sobretudo dos bentevis que lhes almoçam larvas ao lombo. Coisa que todo mundo gosta, tirante as capivaras, é de flor. Pelo que já não entendo, existem razões particulares ou individuais que expliquem tal desgosto das capivaras por flor? Todas guardam água no olho. in Manoel de Barros, O Livro das Ingnorãças, 1993.

O Destino Selado, poema de Herman Schmitz

O Destino Selado de Herman Schmitz E por detrás da fechadura do tempo Eu me vi Foi numa noite escura e tenebrosa em meio à solidão de uma mesa de escrever com dezenas de pequenas anotações repassando à minha frente a luz mortiça de um abajur. Quando — de súbito Surge uma sombra negra que se desloca em minha direção me envolvendo E essa sombra agarra esse papeizinhos e eles são agora como que poeira em minha mente que se desdobram ao vento Minha última recordação… E que será tudo isso na tua mente! na tua mente na mente —  PRESENTE!  —  PRESENTE?  —  PRESENTE. — (c)2007 de Herman Schmitz

O Grande Duelo, poema de Herman Schmitz

O Grande Duelo O Grande Duelo Por Herman Schmitz   Meu Deus, Dai-me a força e a coragem De contemplar meu corpo e minha alma Sem desgosto. Charles Baudelaire   Para ser um Homem, um homem completo O momento preciso não basta Há que ser relâmpago Ter a rapidez do cirurgião E o domínio exercitado de si mesmo   zumbe , entra, sai Sobe e desce voando criatura de si mesmo   repentinamente : degraus desconhecidos despenham -se adiante transportando pavor e incredulidade   — Adiante! Adiante!   Correr eternamente A saltar obstáculos e obstruções — Maratona da vida   Sorver de um só fôlego todo o ar e transpirar sempre Sempre mais além, Somente um pouco mais…   E nunca se chegará ao fim Homem-Universo: Quanto mais do fim se avança Tanto mais é a distancia É tudo relativo Relativo a quem vê   Quando o universo se expande Há segurança e vitalidade ...