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Milorad Pavić — Interpretação Total

Aprendi de cor a vida de minha mãe e, todas as manhãs, durante uma hora, interpreto-a diante dos espelhos, como no teatro. Isso continua dia após dia, há anos. Uso seus vestidos e seu leque e penteio-me como ela, trançando meus cabelos em forma de touca de lã. Imito-a também na presença dos outros e até no leito do meu bem amado. Nos momentos de paixão, não existo mais, sou ela apenas. Imito-a tão bem, então, que minha paixão desaparece, deixando lugar à dela. Desse modo, ela antecipadamente me roubou todas as carícias do amor. Mas não a censuro por isso, porque sei que também ela foi pilhada da mesma forma por sua mãe. Se alguém me perguntasse agora de que serve tal fogo, responderia: tento colocar-me no mundo de novo, tornando-me, porém, melhor… Dicionário Kazar - Romance Enciclopédia em 100.000 palavras - edição feminina, PAVIC, Milorad; tradução Herbert Daniel, ed. Marco Zero, São Paulo, 1989.

Milorad Pavić — Sofia

Quando moço, apaixonei-me por uma jovem. Ela não me notava, mas fui perseverante e, certa noite, pude falar com Sofia (era seu nome) de meu amor com um tal ardor que ela me beijou, e senti-lhe as lágrimas em minha face. Pelo sabor das lágrimas, logo compreendi que era cega, mas isto em nada me perturbou. Permanecemos lá, enlaçados, quando ouvimos chegar do bosque próximo um galope de cavalo. — É um cavalo branco cujo galope atravessa nossos beijos?  —  perguntou ela. —  Não sabemos  —  respondi  —  e saberemos somente quando ele sair do bosque. —  Nada compreendeste  —  disse Sofia, e no mesmo instante um cavalo branco saiu do bosque. —  Sim, sim, compreendi tudo  —  repliquei, e perguntei-lhe de que cor eram meus olhos. —  Verdes - disse ela. —  Ora, observai, tenho os olhos azuis... Dicionário Kazar - Romance Enciclopédia em 100.000 palavras - edição feminina, PAVIC, Milorad; tradução...

Milorad Pavić — O Espelho Rápido e o Espelho Lento

ATEH (século IX) - Princesa kazar, cuja participação no debate que precedeu a conversão dos kazares foi decisiva. Seu nome significa entre os kazares "os quatro estados do espírito". De noite, usava em uma das pálpebras uma letra, como aquelas que se inscrevem nas pálpebras dos cavalos antes da corrida. Essas letras pertenciam ao alfabeto kazar proibido, cujas letras matam logo depois de lidas. As letras eram traçadas por cegos e, pela manhã, antes da toalete, as criadas atendiam a princesa com os olhos fechados. Assim, ela ficava protegida de seus inimigos durante o sono. Para os kazares, o sono era o momento em que o homem é mais vulnerável. Para distraí-la, seus criados trouxeram-lhe, certo dia, dois espelhos. Não eram muito diferentes dos outros espelhos kazares. Ambos eram feitos de sal polido, no entanto um era rápido e o outro lento. O que o espelho rápido tirava do futuro ao refletir o mundo, o espelho lento devolvia, pagando a dívida do primeiro, pois este a...