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Mostrando postagens de janeiro, 2015

A Literatura como uma borboleta invisível — César Aira

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Como uma borboleta invisível A Literatura, essa instituição grandiosa e pesadíssima, também podia ser pequena e leve como uma borboleta invisível, também podia ser uma partícula subatômica (mas de marfim, com encantadoras figuras entalhadas) que atravessava a crosta terrestre, e as madeiras e metais, para fincar-se no mais mole de meus miolos… E sua ferida deliciosa foi tão oportuna, veio tão a calhar, como uma introdução bem escrita a um livro denso e difícil, dessas que, uma vez lidas, tornam a leitura do livro praticamente inútil. César Aira, A Trombeta de Vime, 1998.

O Fluxo da Vida — José Pinheiro Neves

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O Fluxo da Vida O fluxo que faz corrente pode ser                    regato                          ribeiro                                  rio ou mar, aliás como a vida, que chega a ser levada abundante, mas também fluxo brando, e mesmo fluxo de fio de água,                  extenuado. De certos fluxos se pode dizer que                                      rebentam em fartos borbotões, que misturam águas e ganham força,                        ou então que abrandam, para logo retomarem vigor,                        ou para ...

Aquilo que eu sou - Erik Satie

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AQUILO QUE EU SOU Toda a gente vos dirá que não sou músico. E é verdade. Desde o início da minha carreira me classifiquei entre os fonometrógrafos. Os meus trabalhos são pura fonométrica. Agarre-se no Filho das Estrelas ou nos Trechos em Forma de Pera , no Com Fato de Cavalo ou nas Sarabandas , e descobrir-se-á que nenhuma ideia musical presidiu à criação de tais obras. O que lá domina é o pensamento científico. De resto, mais prazer sinto a medir um som do que a ouvi-lo. De fonómetro em punho, trabalho com alegria & segurança. O que não terei já pesado e medido? Todo o Beethoven, todo o Verdi, etc. É muito curioso. Da primeira vez que me servi de um fonoscópio, examinei um si bemol de tamanho médio. Nunca deparei, posso garantir-vos, com uma coisa mais repugnante. Até chamei o criado para ele ver. Com o fono-pesador um fá sustenido vulgar, como tantos há, atingiu os 93 quilogramas. Saía de um muito gordo tenor que também pesei. E sabeis, por acaso, o que é limpar os...

Genealogia Mairum - Darcy Ribeiro

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Genealogia Mairum A onça Putir, da casa do jaguar, pariu a onça Moitá que pariu a onça Pinu que pariu a onça Mbiá que pariu a oncinha Putir para começar tudo de novo. Iaci, da casa dos carcarás, pariu a gaviã Iuicui que pariu a gaviã Numiá, que pariu a gaviã Inimá, que há de parir a netinha da gaviã Iaci para começar tudo outra vez. Uruantã, tuxaua da casa do jaguar, deu ao aroe Uirá dos carcarás a sua irmã Putir para nela gerar onças e recebeu a Iaci, irmã de Uirá, para nela engendrar a sucessão dos carcarás. Anacã, tuxaua da casa do jaguar, cumprindo a tradição, tomou como mulher a gaviã Iuicui para nela gerar novos gaviõezinhos e deu ao aroe Remui, da casa dos carcarás, a sua irmã Moitá para nela gerar oncinhas. Teró, da casa dos carcarás, seguindo a tradição, tomou Pinuarana dos jaguares e nela gerou, para a casa das onças, a Jaguar e a Mbiá. Mas, rompendo a tradição, em lugar de fazer a sua irmã Numiá esperar o desaparecido Avá, a entregou a Cosó da casa dos pacus, com o trato...

Sobre a leitura hoje — Gilles Deleuze

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As boas maneiras de ler hoje (...) as boas maneiras de ler hoje, e chegar a tratar um livro como se escuta um disco, como se olha um filme ou um programa de televisão, como se é tocado por uma canção: todo tratamento do livro que exigisse um respeito especial, uma atenção de outra espécie, vem de uma outra era e condena definitivamente o livro. Não há nenhuma questão de dificuldade nem de compreensão: os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens, são intensidades que convêm a você ou não, que passam ou não passam. 'Filosofia Pop'. Não há nada a compreender, nada a interpretar" Gilles Deleuze, in Dialogues. Flammarion, Paris 1977, p. 10.

Surrealismos Tropicais — Campos de Carvalho

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Vida Sexual dos Perus Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo. A primeira mulher que possuí foi sob a ponte do Sena, em pleno coração do meu Paris imaginário; e ainda me lembro de que ela me sorria com uns dentes que refletiam as estrelas e as lâmpadas do cais adormecido, e dizia-me coisas numa língua que eu não conhecia. Paguei-lhe à vista, e subi eufórico em direção a uma rua de onde vinham sons de uma mandolinata inenarrável, e que se esvanecia à medida que eu me aproximava, e que acabou por des...

O Cão e o Perfume - Poema em prosa de Charles Baudelaire

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O Cão e o Perfume - Charles Baudelaire — Meu lindo cachorro, meu bom cão, querido totó! Aproxime-se, venha respirar um excelente perfume comprado na casa do melhor perfumista da cidade. E o cão, sacudindo a cauda, o que me parece ser, nesses pobres seres, um sinal correspondente à gargalhada e ao sorriso, aproxima-se e pousa curiosamente o focinho no frasco aberto. Mas depois, recuando bruscamente, assustado, late contra mim, à guisa de censura. — Ah! miserável cão, se eu lhe tivesse oferecido um punhado de excremento, você o farejaria com delícia e talvez o devorasse. Até você, indigno companheiro de minha vida triste, se parece com o público, ao qual nunca se devem apresentar perfumes delicados que o exasperem, mas sujeiras cuidadosamente escolhidas. Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa, 1869.

Libelo Contra a Arte Moderna (final) — Salvador Dalí

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Libelo Contra a Arte Moderna (final) — Salvador Dalí Uma jota [canção popular] aragonesa tem por refrão estridente este grito visceral, ibérico e irracional:"Eu te amo como se ama a mãe, como se ama o dinheiro!" O que mais me agrada em todo o pensamento de Augusto Comte é o momento preciso em que, antes de fundar sua nova religião positivista, ele coloca, no topo de sua hierarquia, os banqueiros, aos quais atribui uma importância capital. Talvez esteja ai o lado fenício do meu sangue ampurdan [cantão da Catalunha], mas sempre fui fascinado pelo ouro sob qualquer forma que se apresente. Desde a adolescência, tendo aprendido que Miguel de Cervantes, após ter escrito para a maior glória da Espanha seu imortal Dom Quixote, morreu na maior miséria, e que Cristóvão Colombo, após ter descoberto o Novo Mundo, morreu nas mesmas condições e além do mais na prisão, desde a adolescência, eu dizia, minha prud...

É de confundir! — Conto de Villiers De L’isle-Adam

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É de confundir! — Conto de Auguste Villiers De L’isle-Adam Numa cinza manhã de novembro, eu ia descendo pela beira do rio em passo apressado. Uma garoa fria molhava o ar. Passantes negros, abrigados em guarda- chuvas disformes, se entrecruzavam. O Sena amarelado carregava seus barcos de mercadorias parecidos com besouros. Nas pontes, o vento fustigava bruscamente os chapéus, cujos donos lutavam com o espaço para salvá-los, fazendo aqueles gestos e contorções sempre tão penosos para o artista. Minhas idéias eram pálidas e brumosas; a preocupação de um encontro de negócios, aceito na véspera, atazanava minha imaginação. O tempo era curto, resolvi me abrigar debaixo da marquise de um portão, de onde seria mais cômodo fazer sinal para um fiacre. Na mesma hora notei, bem ao meu lado, a entrada de um prédio quadrado, de aparência burguesa. Ele tinha se erguido na bruma como uma aparição de pedra, e, apesar da rigidez de sua arquitetura, apesar do vapor sinistro que o envolvia, perc...

O Amor e a Loucura — La Fontaine

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Fábula  No amor tudo é mistério: suas flechas e sua aljava, sua chama e sua infância eterna. Mas por que o amor é cego? Aconteceu que um certo dia o Amor e o Loucura brincavam juntos. Aquele ainda não era cego. Surgiu entre eles um desentendimento qualquer. Pretendeu então o Amor que se reunisse para tratar do assunto o conselho dos deuses. Mas a Loucura, impaciente, deu-lhe uma pancada tão violenta que lhe privou da visão. Vênus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança, aos gritos. E diante de Júpiter, Nêmesis — a deusa da vingança — e todos os juízes do Inferno, Vênus exigiu que aquele crime fosse reparado. Seu filho não podia ficar cego. Depois de estudar detalhadamente o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia para o Amor. Jean de La Fontaine, O Amor e a Loucura. In Os Melhores Contos de Loucura. Org. de Flávio Moreira da Costa, 2007.