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Mostrando postagens de 2015

Curriculum — Mario Benedetti (Poema)

A toada é bem simples você nasce contempla atribulado o azul avermelhado do céu o pássaro que emigra o besouro tonto que o teu sapato amassará valente você sofre reclama por comida e por costume e por obrigação chora limpo de culpas extenuado até que o sonho te desqualifique você ama se transfigura e ama por uma eternidade tão provisória que até o orgulho se torna terno e o coração profético se converte em escombros você aprende e usa o aprendizado para tornar-se lentamente sábio para saber que o mundo no fim é isso em seu melhor momento uma nostalgia em seu pior momento um desamparo e sempre sempre um rolo, então você morre. *** Traduzido por Herman Schmitz Da Antologia Poetica, 1986.

As Flores das Trevas — Villiers de l' isle-Adam (Conto breve)

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As Flores das Trevas Ao Senhor Léon Dierx Pessoas de bem, vocês que passam: Rezem pelos mortos! Inscrição à margem de uma estrada Oh, os belos entardeceres! Em frente os brilhantes cafés dos bulevares, nas varandas das confeitarias da moda, que mulheres elegantes em seus trajes coloridos, dando um tom alegre para as ruas. E eis aqui as pequenas vendedoras de flores, circulando com suas frágeis cestinhas. As belas desocupadas aceitam essas flores perecíveis, assustadas, misteriosas... — Misteriosas? — Sim, com certeza! Existe, saibam, sorridentes leitoras –, existe aqui mesmo em Paris uma certa agência que tem acordos com vários agentes funerários de luxo, e inclusive com coveiros, para despojar aos defuntos recentes, não deixando que se murchem inutilmente nas sepulturas todos esses magníficos ramos de flores, essas coroas, essas rosas que, às centenas, o amor filial ou conjugal deposita diariamente nas sepulturas. Estas flores quase sempre permanecem esqueci...

O Pastor Triste — William Butler Yeats (Poema)

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O Pastor Triste William Butler Yeats Houve um homem a quem a Pena fez seu amigo e ele, sonhando com a sua importante amiga foi com passos lentos pelas areias fugidias e rumorosas, onde acodem as onda encrespadas sob o vento: e clamou às estrelas, que desçam de seus pálidos tronos a alivia-lo porém elas riram e cantaram. E então o homem de quem a Pena se fez amigo gritou: Mar lúgubre, ouve a minha lastimável história! O mar seguiu seu curso e deu seu antigo grito silencioso, rodando entre colinas sonolento. Ele deixou de perseguir a glória deste, e detendo-se em um ameno vale remoto gritou a sua história para as rutilantes folhas de orvalho. Mas nada ouviram, pois ela ouvem somente o som de seu próprio gotejar. E logo o homem a quem a Pena se fez amigo buscou outra vez a praia, e falou para uma concha, e pensou, cantarei minha penada história até que, fazendo eco, minhas palavras enviem sua tristeza através de um coração oco e perolado e cante pa...

Sobre estar doente — Virginia Woolf (fragmento)

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Sobre estar doente Considerando quão comum é a doença, quão tremenda a transformação espiritual que ela produz, quão assombrosos, quando as luzes da saúde baixam, os países ignotos que são então expostos, que ermos e desertos da alma um ligeiro ataque de gripe põe à vista, que precipícios e gramados salpicados de flores brilhantes uma pequena elevação da temperatura revela, que antigos e empedernidos carvalhos são desarraigados em nós pelo ato da enfermidade, como descemos ao poço da morte e sentimos as águas da aniquilação pouco acima de nossas cabeças e despertamos pensando nos encontrar na presença dos anjos e dos harpistas quando temos um dente extraído e chegamos à superfície na cadeira do dentista e confundimos seu “Enxágue a boca... Enxágue a boca” com a saudação de Deus curvando-se do piso do Céu para nos dar as boas-vindas – quando pensamos nisso, como somos tão frequentemente forçados a fazer, torna-se realmente estranho que a doença não tenha tomado o seu lugar ao...

O Menino Inerme — Bertolt Brecht (miniconto)

O Menino Inerme Bertolt Brecht "O senhor K., falando do péssimo hábito de deixar passar em silêncio as injustiças, contou esta pequena história. Um transeunte quis saber de um rapazinho em lágrimas a razão de suas penas. — Eu tinha nas mãos dois marcos para pagar uma entrada de cinema — disse o menino —, quando chegou um garoto mais forte do que eu e me arrancou um deles das mãos. E apontou um jovem, que ainda podia ser visto a uma certa distância. — E você não pediu socorro? — perguntou o passante. — Claro — respondeu o menino, soluçando ainda mais forte. — E ninguém o ouviu? — indagou ainda o estranho, acariciando-o amavelmente. — Não... — soluçou o garoto. — Quer dizer que você não tem capacidade vocal, que o habilite a gritar com mais força? — interrogou o homem. — Nesse caso, passe já pra cá esse outro marco! Tomando-o, meteu-o no bolso e continuou tranquilamente o seu caminho." -

Os Nomes — Paul Auster (fragmento)

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OS NOMES — Nesse caso – disse ele –, fico feliz em lhe fazer esse favor. Meu nome é Quinn. — Ah – disse Stillman, pensativo, balançando a cabeça. – Quinn. — Sim, Quinn. Q-U-I-N-N. — Entendo. Sim, sim, entendo. Quinn. Hmmm. Sim. Muito interessante. Quinn. Uma palavra muito sonora. Rima com Caim, não é? — É isso mesmo. Caim. — E também com motim, se não estou enganado. — Não está não. — E também com tintim por tintim. Não é mesmo? — Exatamente. — Hmmm. Muito interessante. Vejo muitas possibilidades nessa palavra, esse Quinn, essa... quintessência... de quididade. Quina, por exemplo. E quinhão. E quase. E quinze. Hmm. Rima com rim. Para não falar em fim. Hmmm. Muito interessante. E sim. E vim. E gim. E mim. Hmmm. Rima até com djim. Hmmm. E se a gente pensar direito, com brim. Hmmm. Sim, muito interessante. Gosto imensamente do seu nome, senhor Quinn. Ele se arvora em muitas pequeninas direções ao mesmo tempo. — Pois é, eu mesmo já notei isso muitas vezes. ...

A conversa mais cretina do mundo — O Apanhador no Campo de Centeio (Trecho)

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A Sally não falou muito, a não ser para se babar com os Lunts, porque estava ocupada em achar tudo bacana e em ser simpática. Aí, de repente, descobriu do outro lado do saguão um imbecil qualquer que ela conhecia. O cara estava de terno de flanela cinza-escuro e um desses coletes de xadrez. Completamente metido a besta. Crente que estava abafando. Ele estava encostado na parede, fumando pra chuchu, dando a impressão de que estava mortalmente aporrinhado. A Sally ficou repetindo: "Conheço aquele rapaz de algum lugar". Ela sempre conhecia alguém, em qualquer lugar que estivesse, ou pelo menos pensava que conhecia. Ficou repetindo tanto, que me enchi e disse: — Se conhece, porque não vai até lá e dá um beijinho nele? Aposto que ele vai gostar. Ela ficou furiosa comigo. Finalmente, o bobalhão nos viu e veio cumprimentá-la. Valia a pena ver os dois se cumprimentando. Parecia até que não se viam há uns vinte anos. Parecia até que os dois tomavam banho juntos, na mesma banheira,...

Ler para Viver — Alberto Manguel

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Anselm Feuerbach - Paolo e Francesca Ler para Viver (Gustave Flaubert — Carta a mlle. de Chantepie, junho de 1857) Com uma das mãos pendendo ao lado do corpo e a outra apoiando a cabeça, o jovem Aristóteles lê languidamente um pergaminho desdobrado no seu colo, sentado numa cadeira almofadada, com os pés confortavelmente cruzados. Segurando um par de óculos sobre o nariz ossudo, um Virgílio de turbante e barba vira as páginas de um volume rubricado, num retrato pintado quinze séculos depois da morte do poeta. Descansando sobre um degrau largo, a mão direita segurando de leve o rosto, são Domingos está absorto no livro que segura frouxamente entre os joelhos, distanciado do mundo. Dois amantes, Paolo e Francesca, comprimem-se sob uma árvore, lendo um verso que os levará a perdição: Paolo, tal como são Domingos, toca o rosto com a mão; Francesca segura o livro aberto, marcando com dois dedos uma página que jamais será alcançada. A caminho da escola de medicina, dois estudante...

Aberturas Célebres de Novelas — George Eliot - Adam Bede

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Aberturas Célebres Com simples gota de tinta, os adivinhos procuram revelar o futuro e os acontecimentos passados. É isso que pretendo fazer contigo, caro leitor. com uma gota de tinta e o bico da minha pena vou conduzir-te à oficina de Jonathan Burge, carpinteiro e mestre de obras na aldeia de Hayslope, tal como era no dia 18 de Junho do ano da graça de 1799. George Eliot. O Noivado de Adam Bede, 1869. ***

Italo Calvino — O Anel (Miniconto)

O ANEL Italo Calvino O imperador Carlos Magno, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer sua dignidade real, negligenciava os deveres do Império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignitários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. O imperador mandou embalsamar o cadáver e transportá-lo para a sua câmara, recusando separar-se dele. O arcebispo Turpino, apavorado com essa paixão macabra, suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta, encontrou um anel com uma pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferiu seu amor para a pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir àquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago Constança. Carlos Magno apaixonou-se então...

O Piano Coquetel — Boris Vian (fragmento)

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O PIANO COQUETEL - Quer um aperitivo? - perguntou Colin. - Meu pianoquetel está pronto, você pode experimentar. - Funciona? - perguntou Chick. - Perfeitamente. Foi difícil acertar o ponto, mas o resultado está além do que eu esperava. Consegui, a partir de "Black and Tan Fantasy", uma mistura realmente assombrosa. - Qual é o princípio? - perguntou Chick. - A cada nota - disse Colin - faço corresponder uma bebida, um licor ou um aromatizante. O pedal forte corresponde a um ovo batido, e o pedal doce, ao gelo. Para a soda, basta um toque no registro agudo. As quantidades são calculadas na razão direta da duração: à semifusa equivale um dezesseis avos de dose, à semínima uma unidade, à semibreve o quádruplo da dose. Quando tocamos uma peça lenta, aciona-se um sistema de registro de modo que a quantidade não seja aumentada, o que daria um coquetel grande demais, mas o teor de álcool, sim. E, de acordo com a duração da peça, podemos, se quisermos, fazer variar o va...

O Cético — H.L. Mencken

O HOMEM CÉTICO Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar piamente numa ideia, mas não em um homem. No mais alto grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida — uma sensação meio instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter um ás escondido na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é sempre mais do que justificada, porque ainda não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada — sua traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é o de que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas o de que tendem a ser confiantes demais — e de que ainda confiam demais em outros homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras coisas. Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age como se confiasse nele. Sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteira...

Capivaras — Manoel de Barros

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Capivaras por Manoel de Barros Tudo o que se há de dizer aqui sobre capivaras, nem as mentiras podem ser comprovadas. Se esfregam nas árvores de tarde antes do amor. Se amam sem ocupar beijos. Excitadas se femeiam por baixo dos balseiros. E ali se aleluiam. O cisco da raízes aquáticas e a bosta dos passarinhos se acumulam no lombo das capivaras. Dali se desprende ao meio dia forte calor de ordumes larvais . No lombo se criam mosquitos monarcas, daqueles de exposição, que furam até vidros e abaixam pratos de balança. É vezo de dizer-se então que capivara é um bicho insetoso. Porquanto favorecem a estima dos pássaros, sobretudo dos bentevis que lhes almoçam larvas ao lombo. Coisa que todo mundo gosta, tirante as capivaras, é de flor. Pelo que já não entendo, existem razões particulares ou individuais que expliquem tal desgosto das capivaras por flor? Todas guardam água no olho. in Manoel de Barros, O Livro das Ingnorãças, 1993.

O Destino Selado, poema de Herman Schmitz

O Destino Selado de Herman Schmitz E por detrás da fechadura do tempo Eu me vi Foi numa noite escura e tenebrosa em meio à solidão de uma mesa de escrever com dezenas de pequenas anotações repassando à minha frente a luz mortiça de um abajur. Quando — de súbito Surge uma sombra negra que se desloca em minha direção me envolvendo E essa sombra agarra esse papeizinhos e eles são agora como que poeira em minha mente que se desdobram ao vento Minha última recordação… E que será tudo isso na tua mente! na tua mente na mente —  PRESENTE!  —  PRESENTE?  —  PRESENTE. — (c)2007 de Herman Schmitz

O Grande Duelo, poema de Herman Schmitz

O Grande Duelo O Grande Duelo Por Herman Schmitz   Meu Deus, Dai-me a força e a coragem De contemplar meu corpo e minha alma Sem desgosto. Charles Baudelaire   Para ser um Homem, um homem completo O momento preciso não basta Há que ser relâmpago Ter a rapidez do cirurgião E o domínio exercitado de si mesmo   zumbe , entra, sai Sobe e desce voando criatura de si mesmo   repentinamente : degraus desconhecidos despenham -se adiante transportando pavor e incredulidade   — Adiante! Adiante!   Correr eternamente A saltar obstáculos e obstruções — Maratona da vida   Sorver de um só fôlego todo o ar e transpirar sempre Sempre mais além, Somente um pouco mais…   E nunca se chegará ao fim Homem-Universo: Quanto mais do fim se avança Tanto mais é a distancia É tudo relativo Relativo a quem vê   Quando o universo se expande Há segurança e vitalidade ...

Com a arte não se brinca — Julio Cortázar e Man Ray

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O Presente, Man Ray. Man Ray pensava em seu ferro de engomar cheio de pregos e outros estupendos objetos quando afirmou: De maneira nenhuma eles deviam ser confundidos com as pretensões estéticas ou o virtuosismo plástico que em geral se espera das obras de arte. Naturalmente - acrescentava a corujinha de óculos pensando na tal senhora -, os visitantes da minha exposição ficavam perplexos e não se atreviam a divertir-se, porque uma galeria de pintura é considerada um santuário onde não se brinca com a arte . E não se atreviam a divertir-se. Man Ray, como você gostaria de ter ouvido o que eu ouvi alguns meses atrás em Genebra, onde uma galeria da cidade velha prestava uma homenagem ao Dadá. Lá estava justamente o seu ferro cheio de pregos, e enquanto a senhora lá de cima o contemplava com gélido respeito, uma garota ruiva mantinha esse diálogo exemplar com outra quase loura: — No fundo, não é tão diferente do meu ferro. — Como assim? — É, com esse você se espeta...

Uma Confusão Cotidiana — Franz Kafka (miniconto)

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"Franz Kafka" por Robert Crumb. UMA CONFUSÃO COTIDIANA  Franz Kafka Um incidente cotidiano: suportá-lo, uma confusão cotidiana. A precisa fechar com B, de H, um negócio importante. Vai a H para uma conversa prévia, percorre o caminho de ida e o de volta em dez minutos cada, e em casa se gaba dessa particular rapidez. No dia seguinte vai de novo a H, desta vez para o fechamento definitivo do negócio. Tendo em vista que este, segundo as previsões, exigirá várias horas, A parte de manhã bem cedo. Mas embora todas as circunstâncias — pelo menos na opinião de A — sejam exatamente as mesmas do dia anterior, dessa vez ele precisa de dez horas para fazer o caminho até H. Quando chega lá à noite, exausto, dizem-lhe que B, irritado com o não-comparecimento de A, tinha ido fazia meia hora para a aldeia de A e que na verdade deveriam ter-se encontrado no caminho. Aconselham A a esperar. Mas A, angustiado com a realização do negócio, parte imediatamente e vai às pressas para...

O Gato Velho — Poema e desenho de Patricia Highsmith

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Desenho da autora. O GATO VELHO Nada foi feito para mim, Não, nem mesmo a lareira, Pois algumas vezes sinto frio e não há fogo, E outras vezes, não me deixam ir até ali. Sombras me entediam, e se acaso são um mistério É bem sem graça. Meus ta-tataranetos Brincam insensatos ao meu redor, mas eu agora já sei Que os forros das coisas são apenas forros, E que atrás da porta entreaberta Há outra sala como esta aqui. Gosto de sentar com meus olhos semicerrados, Porque já vi de tudo E minhas memórias são bem mais interessantes. Estou em paz com tudo. Até os camundongos podem vir a poucos centímetros, Sabendo que aposentei nossa antiga guerra. Apenas meus ta-tataranetos Me irritam às vezes, puxando meu rabo, Esbarrando e escorregando por cima de mim. Dou-lhes uns bons tapas nas orelhas, E volto para onde deixei meus pensamentos. Estou em paz com tudo. Patricia Highsmith

Para fazer um poema dadaísta — Tristan Tzara

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Para fazer um poema dadaísta Pegue num jornal. Pegue numa tesoura. Escolha no jornal um artigo que tenha o tamanho que pensa dar ao seu poema. Recorte o artigo. Recorte seguidamente com cuidado as palavras que formam o artigo e meta-as num saco. Agite com cuidado. Seguidamente, retire os recortes um por um. Copie conscienciosamente segundo a ordem pela qual foram saindo do saco. O poema parecer-se-á consigo. E você tornou-se um escritor infinitamente original e duma sensibilidade encantadora, ainda que incompreendida pelo vulgo. Tristan Tzara

A Morta — Guy de Maupassant (Conto fantástico)

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A Morta Guy de Maupassant Eu a amei perdidamente! E por que amamos? É mesmo estranho ver no mundo somente um ser, ter no espírito um pensamento único, no coração um desejo, na boca um só nome: um nome que se eleva incessantemente, que sobe, como a água de uma fonte, do íntimo da alma à flor dos lábios, e que se pronuncia, que se repete, que se murmura continuamente, por toda parte, como uma prece elegíaca. Não contarei nossa história. O amor tem só uma, a mesma de sempre. Encontrei-a na vida e amei-a. Eis tudo. E durante um ano vivi de sua carícia, no aconchego de seus braços, embalado por sua voz, iluminado por seu olhar, aprisionado, envolvido, ligado a tudo que emanava de seu ser, mas de tal maneira que não sabia quando era tarde ou aurora, que ignorava se era morto ou vivo, sobre a terra ou fora da terra... E ela morreu! Como? Não sei mais! Ela saiu numa noite chuvosa e retornou encharcada; e, no outro dia, tossiu. Tossiu por uma semana, de cama. O que aconteceu? Não s...

Silêncio Brilhante — Spencer Holst (Conto muito curto)

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SILÊNCIO BRILHANTE  Spencer Holst Dois ursos Kodiak nativos do Alasca entraram para um pequeno circo em que se apresentavam numa parada noturna puxando um carro coberto por uma lona. Os dois foram ensinados a dar cambalhotas, a girar, a ficar apoiados em suas cabeças, e a dançar sobre suas pernas traseiras, pata com pata, os passos em harmonia. Debaixo dos holofotes os ursos dançarinos, um macho e uma fêmea, logo se tornaram os favoritos da multidão. O circo foi para o sul numa turnê pela costa oeste através do Canadá até a Califórnia e continuou para baixo até o México, passando pelo Panamá em direção à América do Sul, cobrindo os Andes na extensão do Chile em direção àquelas ilhas mais ao sul da Terra do Fogo. Lá um jaguar atacou o ilusionista, e depois feriu mortalmente o treinador de animais, e as pessoas, chocadas, debandaram em desalento e horror. Na confusão os ursos tomaram o seu próprio caminho. Sem um dono, eles vagaram a sós pela selva naquelas ilhas subantárticas ...