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A Guerra — Romance de J. M. G. Le Clézio – Parte 05

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A GUERRA (#05) Mas não era um romance, era uma carta, e é também o que eu pensaria se não fosse uma menina, isto é, se tivesse a coragem de ser feia o tempo todo. Há tantos pós para o rosto, tantos tons de batom, tantos cílios postiços, tantos lápis de olho coloridos, tantas tinturas para o cabelo, que ser covarde já não significa nada. — Claude Grenier. "Sabe o que vamos fazer?", disse Bea B. ao Sr. X. "Vamos partir para o ataque." Ela se levantou e começou a andar descalça pela sala. Acendeu um cigarro com um fósforo. "Vamos nos tornar soldados e demolir tudo, é isso que vamos fazer." Ela sentou-se na beira da cama e olhou para si mesma no espelho. Você concorda? Ela decidiu que seu olhar ainda era muito delicado e colocou seus óculos escuros. "Ainda estamos falando demais." Ela se levantou, calçou os sapatos, abriu a porta e saiu. 'AVANÇAR!' Mas primeiro, um uniforme. Todos os soldados de verdade usam uniforme. Seria possível se vestir...

A Guerra — Romance de J. M. G. Le Clézio – Parte 04

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A GUERRA (#04) A guerra está longe de terminar, longe disso! Ela ainda irrompe selvagemente: erupções de luz mais assassinas que balas, erupções de olhos saltando das órbitas, erupções de metal. Tudo está desenfreado, voltado para a aniquilação. Morte a tudo que é autossuficiente, a tudo que é inerentemente singular! Chega de pensar! Chega de agir! De agora em diante, rendam-se... A guerra irrompe de bocas de fogo. As cortinas são abertas e os canos das armas são revelados. Um carro preto desce a rua íngreme: de repente, uma metralhadora surge acima do teto e começa a dizimar os pedestres. A palavra matar está escondida em toda parte, ecoando em cada palavra. Mas não se trata de matar. Quando o sangue finalmente jorra das feridas, que paz! Quando o ônibus sai dos sulcos invisíveis da estrada e esmaga duas ou três crianças ou um casal de mulheres contra uma parede, algo se liberta. Uma espécie de alegria ou verdade se manifesta. Quando a violência se transforma em crime, ela inventa a l...

A Guerra — Romance de J. M. G. Le Clézio – Parte 03

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A GUERRA (#03) Nos casos em que foi possível determinar a posição de uma massa de um miligrama de prata com uma precisão de 0,1 milímetros, a incerteza quanto à velocidade dessa massa excede necessariamente um milionésimo de milionésimo de mícron por hora. Werner Heisenberg. A garota chamada Bea B. tinha visto a cidade tomar forma ao redor de sua cabeça. Isso não aconteceu de repente, longe disso. Levou anos, anos com meses e dias que se contam nos dedos enquanto se estuda as páginas de um calendário, ou marcando uma pequena cruz a cada vinte e oito dias. No primeiro dia, havia um quarto de hotel com papel de parede amarelo e uma cortina azul fechada na janela. Naquele dia, tudo emergiu da cama, do colchão afundado e dos lençóis brancos. O vazio fugiu, meio voando, meio nadando; espalhou-se pelo ar frio, correu pela rua, elevou o quarto até o topo de uma espécie de torre que se elevava acima do mar de sons e movimentos. No oitavo dia, todos os tipos de estradas haviam tomado forma, com...

A Guerra – Romance de J. M. G. Le Clézio – Parte 02

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A GUERRA (#02) Por J. M. G. Le Clézio Foi assim que a guerra começou, provavelmente, embora agora seja tarde demais para saber com precisão. Ela se espalha pela planície cinzenta. Preenche o espaço. Doença que rompe membranas e faz a linfa fluir. Escolheu lugares habitados por homens. Rompeu os diques. Tocou a terra com a ponta de seu cone de dor, um único nervo entre milhões de nervos. Buscou o corpo de uma garota entre milhões de outras garotas. Mas, é claro, a guerra sempre foi guerra e existe além do pensamento. Está em toda parte. Nos sonhos da noite, num lento pôr do sol, no amor, no ódio, na vingança. Ela apenas começou. Não é um acidente. Não é um evento. É guerra. Está inscrito em paredes revestidas de papel de parede, dentro de flores, em rosáceas. Está gravado na superfície do vidro e da água, na chama do fósforo, em cada grão de areia. Uma guerra que não quer vencer, que não precisa vencer. Já não se trata de disputas ou incursões humanas, dos corredores de Danzig ou do...

A Guerra – Romance de J. M. G. Le Clézio – Parte 01

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Começo aqui a publicação de um romance que me foi impactante quando eu o li, nos anos 1980, na versão em espanhol (ao ponto de traduzir alguns trechos e criar com eles um monólogo teatral, o qual foi até ensaiado, mas não apresentado). Atualmente, com essa Guerra Mundial "não declarada" em andamento, achei importante transcrever esse texto aqui, na Internet, com o objetivo de alcançar um público mais amplo para esse romance; que é mais que isso, é um imenso poema em prosa, e além, gera uma metalinguagem em êxtase, enfim, um curioso documento com a capacidade de transmutar o leitor em um personagem ativo e participante do jogo que propõe o autor.  A GUERRA Por J. M. G. Le Clézio A GUERRA COMEÇOU. Onde ou como, ninguém mais sabe. Mas o fato permanece. Agora ela está atrás da cabeça de cada pessoa, sua boca escancarada e ofegante. Guerra de crimes e insultos, de olhos cheios de ódio, de pensamentos explodindo de crânios. Ela está lá, erguida sobre o mundo, lançando sua rede de f...