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Mostrando postagens de outubro, 2025

1.000 PALAVRAS — Que Mistério tem Clarice? Sérgio Abranches

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1 Susto definitivo Há sustos que são definitivos. Deixam uma pequena bola de gelo perene incrustada naquela parte da alma que fica na altura do estômago. O susto a pegou já na rua, quando deixou o prédio. De repente, o mundo desapareceu em uma nuvem tempestuosa de dúvidas. Perdeu o rumo naquela neblina espessa e foi então que sentiu a pequena bola de gelo congelar o ponto crucial do miolo de seu ser. — Quanto tempo? — Um ano… dois… até cinco — respondeu seu médico pessoal, Luiz Rémy, com anuência do dr. Rabello, o especialista. — Como são os tratamentos? Quem respondeu desta vez foi o dr. Rabello: — Em alguns casos recorre-se a cirurgias cada vez mais agressivas, para tentar eliminar o máximo de tecido canceroso. Mas não atende as suas condições. Radioterapia pode ajudar a reduzir o tumor e o ritmo de crescimento nos casos de detecção precoce. Não é o que estamos vendo. O caminho recomendado é a quimioterapia. — Quanto tempo sem limitações que me aprisionem a uma cama ou cirurgias inva...

Primeiras Mil Palavras — Sátántangó de László Krasznahorkai

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Aqui estão as primeiras 1k palavras deste romance escrito pelo húngaro László Krasznahorkai vencedor do prêmio Nobel de Literatura deste ano (2025).  1. A notícia de que eles estavam chegando Numa manhã do final de outubro, não muito antes que as primeiras gotas das chuvas impiedosamente longas de outono se desprendessem sobre a terra rachada, ressequida, do lado ocidental do assentamento (para que depois o mar pútrido de lama tornasse intransitáveis os caminhos, e também a cidade ficasse inacessível), Futaki despertou ao som de sinos. A quatro quilômetros de distância a sudoeste, nas antigas terras de Hochmeiss, existia uma capela solitária, porém lá não apenas não havia sino como a torre desabara no tempo da guerra, ao passo que a cidade, por sua vez, ficava muito afastada para que dela chegasse algum som. Além disso, o badalar plangente, triunfante, não lembrava sinos distantes, mais parecia que o vento o tinha trazido de bem perto (“Como se viesse do moinho…”) para aqueles la...