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Mostrando postagens de 2014

No céu ficam os astros apenas — Almada Negreiros

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José de Almada Negreiros Cada um de nós não pode deixar de ser o próprio, e ainda que para isso lhe seja indispensável a maior das forças de vontade. Efetivamente, o que os astros mandam não é para ficar no céu. No céu ficam os astros apenas. Nós somos exatamente o que eles mandam. E, verdade verdadinha, antes obedecer aos astros do que a outros. A nossa obediência aos astros é a um tempo involuntária e heroica. Involuntária, porque a vontade é a deles, e heroica, porque não há de ser vencida pela dos humanos. Há em cada pessoa um espírito de vitória e é o mais legítimo da sua vida íntima. Nenhuma alma em vida deixou de ser instada por este espírito de vitória. Ele é a mais bela expressão da cara humana, e a sua ausência a pior. O espírito de vitória é... o espírito de vitória não é..., e estes pensamentos gaguejavam na cabeça do Antunes como se ele fosse também gago da fala. Tinha-se-lhe ido de repente a ideia tão clara, e as palavras não tiveram tempo de a agarrar. Quando se quer...

O Diário de Eva (fragmentos) — Mark Twain

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Diário de Eva DOMINGO DA SEMANA SEGUINTE Durante toda a semana eu fiquei ao redor dele e tentei estabelecer relações. Tive que conversar sozinha, porque ele se sentiu intimidado, mas não me importei com isso. Ele parecia feliz de me ter por perto, e eu usei o sociável "nós” por um bom tempo, porque ele parecia ficar lisonjeado ao ser incluído. QUARTA-FEIRA Estamos nos dando muito bem, de fato, agora, e nos conhecendo cada vez melhor. Ele já não tenta me evitar, o que é um bom sinal, e demonstra que gosta de que eu esteja por perto. Isto me agrada, e eu estudo como ser útil para ele de todas as maneiras que puder, para assim aumentar a sua atenção. Durante os últimos dois dias eu tirei de seus ombros todo o trabalho de dar nome às coisas, e foi um grande alívio para ele, pois ele não tem talento para tanto e está evidentemente muito agradecido. Ele não consegue pensar num único nome racional para salvar sua reputação, mas não o deixo perceber que estou consciente deste s...

O Diário de Adão (fragmentos) — Mark Twain

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FRAGMENTOS DO DIÁRIO DE ADÃO QUARTA-FEIRA Construí um abrigo contra a chuva, mas não pude desfrutá-lo em paz. A nova criatura intrometeu-se nele. Quando tentei expulsá-la, ela verteu água pelos orifícios pelos quais olha, e enxugou-a com as costas de suas patas, produzindo um ruído semelhante ao que vários animais fazem quando estão aflitos. Gostaria que não falasse; está sempre falando. Isso parece uma implicância gratuita com a pobre criatura, um insulto; mas não é o que quero dizer. Eu nunca havia escutado uma voz humana antes, e qualquer som novo e estranho que irrompe sobre o murmurar solene destas vastidões sonhadoras ofende meus ouvidos e soa como uma nota falsa. E este novo som está tão perto; bem ao lado do meu ombro, em cima das minhas orelhas, primeiro de um lado, depois do outro, e estou acostumado apenas a sons que estão mais ou menos longe de mim. SEXTA-FEIRA O processo de nomear continua intenso e sem qualquer controle, e não há nada que eu possa fazer. Eu...

Estou cansado de confiar em mim próprio — Fernando Pessoa

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Fernando Pessoa [Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar]                                           25-7-1907       Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar, de derramar lágrimas de piedade de mim próprio. Acabo de ter uma espécie de cena com a Tia Rita por causa de E. Coelho. No final, senti novamente um daqueles sintomas que se tornam cada vez mais claros e mais horríveis em mim: uma vertigem moral. Na vertigem física há um rodopiar do mundo exterior à nossa volta; na vertigem moral um rodopiar do mundo interior. Pareceu-me perder, por momentos, o sentido das verdadeiras relações das coisas, perder a compreensão, cair num abismo de dormência mental. É uma sensação pavorosa, que nos acomete de um medo desmesurado. Estas sensações estão a tornar-se comuns, parecem abrir-me o caminho para uma nova vida mental, que será, evidentemen...

E se o Mundo Fosse Acabar — Marcel Proust

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Marcel Proust, Jacques-Émile Blanche (Fotografo francês 1861–1942). E se o Mundo Fosse Acabar...        Uma pequena questão: se o mundo fosse acabar, o que você faria?    Creio que a vida nos pareceria bruscamente deliciosa, se estivéssemos realmente ameaçados de morrer como você diz. Pense, de fato, em quantos projetos, viagens, amores, estudos nessa — nossa vida — ficam sem solução, invisíveis pela nossa preguiça e ficam eternamente adiados.    Mas se tudo isso fosse para sempre impossível, quão belo não nos pareceria! Há, se realmente o cataclismo estivesse perto, desta vez não deixaríamos de visitar as novas salas do Louvre, de ajoelharmos aos pés da Srta. X... De visitar as Índias. Mas o cataclismo não acontece, não fazemos nada disso tudo, pois estamos no meio da vida normal, aonde a negligência esmorece o desejo.    E entretanto, não deveríamos ter necessidade de cataclismos para amar a vida. Bastaria pensar que somos hum...

Glossário de Miados — Guillermo Cabrera Infante

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Guillermo Cabrera Infante A linguagem de Offenbach    Offenbach se comunica conosco com algo mais do que miados. Seu repertório de sons forma uma linguagem peculiar em que o ouvido treinado busca e encontra significados. Brrr é um ronrom de prazer e de contentamento. Burrr é o ronrom alongado até uma forma de protesto: não se deve continuar acariciando-o, ou se deve acariciá-lo em outra parte do corpo. Miau é a saudação matinal, uma espécie de bom-dia que Offenbach nunca deixa de dar. Miauuu é para pedir algo: de comida até a abertura de uma janela para sentir o cheiro do jardim. Miuu é sempre uma advertência: significa que está presente e, portanto, não se deve pisoteá-lo, ou, o que é pior, passar por cima. Miu é uma simples saudação a qualquer hora do dia. Miawou é a saudação a quem volta para casa. É também uma forma de queixa: ficou muito tempo sozinho. Mia miau é uma exigência: comida atrasada ou alguém que não quer carregá-lo ou ceder-lhe um...

Vivamos, minha Lésbia, e amemos — Caio Valério Catulo

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Vivamos, minha Lésbia, e amemos        Vivamos, minha Lésbia, e amemos, não façamos caso a toda essa falação dos velhos por demais cautelosos.    Os astros podem ocultarem-se e reaparecerem, porém nós, estamos aqui para dormir por toda a eternidade, tão logo acabe a breve chama da nossa vida. Dá-me mil beijos e depois cem, outros mil logo em seguida, e mais outros cem. Comece novamente até chegar a outros mil e ainda a mais outros cem. E depois de termos acumulado muitos milhões, vamos misturá-los até perdermos a conta ou para que nenhum invejoso venha mandingar quando saiba que demos tantos beijos. Caio Valério Catulo (   Verona, 87 ou 84 a.C. - 57 ou 54 a.C. ) Tradução de Herman Schmitz

O Rato e o Eremita - Panchatantra

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O RATO E O EREMITA "O ignóbil que atinge uma posição elevada atenta contra a vida do seu amo, como o rato que, tendo chegado a ser tigre, tentou matar o eremita".    Vivia, no bosque da penitência consagrado ao grande Gautama, um eremita chamado Maátapas.    Um dia, encontrou esse eremita um ratinho que ia sendo carregado por um corvo. O eremita, compassivo por natureza, alimentou-o com grãos de arroz e passou a criá-lo.    Até o dia em que surgiu um gato correndo atrás do rato para comê-lo. Ao vê-lo, correu o rato a se esconder no colo do eremita.   Disse então o eremita:    — Rato, transforma-te tu em gato.    Transformado em gato, porém, fugia o animal ao ver um cão.   Disse então o eremita:     —  Se tens medo do cão; transforma-te tu também em cão.    Transformado em cão, porém, tinha o animal medo do tigre.    Transformou então o eremita o cão em tigre.    Para o ...

A Barba — Arthur Schopenhauer (A Arte de Insultar)

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A barba    A barba, por ser quase uma máscara, deveria ser proibida pela polícia. Além disso, enquanto distintivo do sexo em meio ao rosto, ela é obscena: por isso é apreciada pelas mulheres.    Dizem que a barba é natural ao homem: não há dúvida, e por isso ela é perfeitamente adequada ao homem no estado natural; do mesmo modo, porém, no estado civilizado é natural ao homem fazer a barba, uma vez que assim ele demonstra que a brutal violência animalesca — cujo emblema, percebido imediatamente por todos, é aquela excrescência de pelos, característica do sexo masculino — teve de ceder à lei, à ordem e à civilização. A barba aumenta a parte animalesca do rosto e a ressalta. Por essa razão, confere-lhe um aspecto brutal tão evidente. Basta observar um homem barbudo de perfil enquanto ele come! Este pretende que a barba seja um ornamento. No entanto, há duzentos anos era comum ver esse ornamento apenas em judeus, cossacos, capuchinhos, prisioneiros e ladrõ...

Lamentos de Ipu-ur - Poesia Egípcia (XII Dinastia)

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Lamentos de Ipu-ur Em verdade o rosto está pálido () o que os ancestrais predisseram aconteceu. Em verdade () o país está cheio de bandos [revoltosos], e para lavrar um homem leva seu escudo. Em verdade o cordato diz () é um homem de recursos. Em verdade [o rosto] está lívido e o arqueiro está pronto, o crime alastrou-se e não há homens como antigamente. Em verdade os ladrões estão por toda parte, os criados levam o que encontram. Em verdade o Nilo inunda mas ninguém lavra para si, pois todos dizem "Não sabemos o que sucederá ao pais". Em verdade as mulheres estão estéreis, nenhuma concebe: Chnum não molda [mortais] por causa da situação do pais. Em verdade os pobres passaram a exibir luxo, e o que não podia ter () sandálias possui riqueza Em verdade os criados estão vorazes e o poderoso não mais compartilha [de alegria] com sua gente Em verdade [os corações] estão violentos, a calamidade varre o país, há sangue por toda parte, não faltam morto...

Ernest Hemingway — Escrevendo em Paris

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Escrevendo em Paris        Era um café agradável, quente, limpo e acolhedor. Pendurei minha velha capa no cabide, para secar, coloquei meu surrado e desbotado chapéu de feltro na prateleira que ficava por cima dos bancos e pedi um café au lait . O garçom trouxe-o e eu tirei do bolso do paletó o caderno de notas e um lápis e comecei a escrever.     Estava escrevendo um conto que se passava em Michigan e, como o dia estava péssimo, frio e ventoso, coloquei em minha história um dia exatamente assim. Eu já conhecia muitos fins de outono, da minha infância, da adolescência e dos primeiros anos da idade adulta, e sabia que há lugares em que se pode escrever melhor sobre essa época do ano do que em outros. É o que se chama de transplantação, pensei, e isso podia ser tão necessário às pessoas como a outras espécies de coisas que crescem. No meu conto os rapazes estavam bebendo, e isso me deu sede: pedi um rum Saint James. Caiu-me bem, naquele dia frio, e co...

Nem eu nem ninguém mais pode caminhar esse caminho por você - Walt Whitman

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Nem eu nem ninguém mais pode caminhar esse caminho por você. Você deve caminhá-lo por si mesmo. Não está longe, está ao alcance. Talvez você esteja nele desde que nasceu e não saiba. Talvez esteja em todas as partes, sobre a água e sobre a terra. Walt Whitman

Alhos de Bugalhos — João Guimarães Rosa

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Alhos e Bugalhos Misturar alhos com bugalhos é tomar uma coisa por outra, fazer confusões. Há também a forma: falo-lhe em alhos, responde-me com bugalhos, consignada em vários adagiários e que significa: Pergunto-lhe uma coisa, responde outra. Há uma outra locução com o mesmo sentido: Confundir germano com gênero humano. João Guimarães Rosa apresenta uma extensão, no conto: “A simples e exata estória do burrinho do comandante”: “O Sr. pode às vezes distinguir alhos de bugalhos, e tassalhos de borralhos e vergalhos de chanfalhos, e mangalhos... Mas, e o vice-versa?" R. Magalhães Junior. Dicionário Brasileiro de Provérbios, Locuções e Ditos Curiosos, 1974

Pandemônio — John Milton

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Pandemônio Definida hoje por nossos dicionários como conluio de indivíduos para fazer mal ou armar desordens; o Inferno; tumulto; balbúrdia  e coisas semelhantes, pandemônio é uma palavra inventada pelo famoso poeta inglês John Milton em seu grande poema O Paraíso Perdido . Aliás, ele escrevia Pandemonium , com maiúscula, e no seu poema tal lugar é o Palácio dos Diabos, ou a capital do Inferno. Embora criada artificialmente, tal palavra tem raízes gregas perfeitas: pan, que significa todos, e daimon, demônios, ou seja, concentração ou assembléia de demônios. R. Magalhães Junior. Dicionário Brasileiro de Provérbios, Locuções e Ditos Curiosos, 1974

Serendipidade — James M. Schlatter

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Serendipidade Em dezembro de 1965, eu estava trabalhando com o Dr. Mazur na síntese do tetrapeptídeo terminal-C da gastrina. Nós estávamos fazendo compostos intermediários e tentando purificá-los. Particularmente, em uma ocasião em dezembro de 1965, eu estava recristalizando o aspartilfenilalanina metil éster (aspartame) que havia sido preparado... e dado a mim pelo Dr. Mazur. Eu estava aquecendo o aspartame em um frasco com metanol quando a mistura pulou para fora do frasco. Como resultado, um pouco do pó ficou nos meus dedos. Um pouco mais tarde, ao lamber meu dedo para pegar uma folha de papel, percebi um sabor doce muito forte. Inicialmente pensei que pudesse haver um pouco de açúcar em minhas mãos do começo do dia; entretanto, eu logo percebi que isso não podia ser verdade, pois eu havia lavado minhas mãos neste meio-tempo. Assim, remontei a origem do pó em minhas mãos até o recipiente no qual havia colocado o aspartilfenilalanina metil éster cristalizado. Achei que este és...

Uma noite em lztapa — Aldo Buzzi (Nota)

Uma noite em Iztapa Me lembro de uma noite em lztapa, às margens do pacífico, na Guatemala. A lua despontava por trás do bambual como um imenso disco vermelho. Era a hora em que as escritoras embebem suas penas no tinteiro e as macacas gritadoras, deslocando-se em bandos para o alto dos galhos, rugem como leões. Aldo Buzzi - Viagem à Terra das Moscas, 1987

As Coisas Pesam Mais se São Olhadas — Julio Cortázar

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Julio Cortázar. Os Prêmios, 1975

O Fusca Digerido de H.S. — Poema sobre a seca em SP

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O Fusca Digerido A seca que atinge 70 cidades em São Paulo Seca rios antes cobertos de água E hoje mostram-se fantasmas de outras décadas Pesados objetos afundados em antigos acidentes Vejo que até uma ponte foi erguida logo ao lado Também vejo como em uma pintura surreal Essa terra seca onde pesava o seu leito de águas Revelar-se uma terra escamada e escoriaçada Penso nas portas do carro que abriram-se no choque E por força da ação das águas ficaram escancaradas E é provável terem assim salvado os seus ocupantes E os vejo nadando de volta para a superfície Agora é tudo um mormaço de ar quente E a água sumiu bebida e evaporada Deixando com isso treze milhões de sedentos E um fusca enferrujado para lembrar os ali afogados Herman Schmitz, Londrina 16 de outubro de 2014

Para quem não sabe para onde vai ~ Lewis Carroll

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Alice no País da Maravilhas

O Suplício da Esperança — de Villiers de L'Isle-Adam por João Alphonsus

O senhor conhece um conto de Villiers de L'Isle-Adam, o Suplício da Esperança? Não? Um inquisidor determinou que se suplicie uma de suas vítimas, como último recurso para tentar a salvação de sua alma. Com a esperança de poder fugir da prisão, o homem descobre que a porta do calabouço foi esquecida com a fechadura aberta, empurra-a e sai pelos intermináveis corredores; os frades passam por ele; sem vê-lo em algum cotovelo de muro em que procurava se ocultar; um deles, que vem discutindo com outro sobre alto problema teológico, pousa sobre o fugitivo o olhar distraído, e o fugitivo se imobiliza num calafrio gelado, dentro de um desvão de parede; mas ambos distraidamente se afastam repetindo, entre outras palavras pias, o nome de Cristo: o fugitivo já está vendo a porta de saída, lá fora há luz e ar; se aproxima da liberdade, quando se sente abraçado pelo próprio inquisidor, que o chama de filho e lhe diz para não fugir dali, para não fugir de Cristo… É assim que guardei a r...

Grifo — Antoine Compagnon

Grifo Ler, com um lápis na mão, como recomendava Erasmo, em De Duplici Copia, assim como todo ensinamento da Renascença, contornar algo do texto com um forte traço vermelho ou negro é traçar o modelo do recorte. O grifo assinala uma etapa na leitura, é um gesto recorrente que marca, que sobrecarrega o texto com o meu próprio traço. Introduzo-me entre as linhas munido de uma cunha, de um pé de cabra ou de um estilete que produz rachaduras na página; dilacero as fibras do papel, mancho e degrado um objeto: faço-o meu. É por isso que na biblioteca toda essa gesticulação íntima me é proibida. In: COMPAGNON, Antoine. O Trabalho da Citação. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996.

A Próxima Aldeia — Franz Kafka

A Próxima Aldeia — Franz Kafka Meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Para mim ela agora se contrai tanto na lembrança que eu por exemplo quase não compreendo como um jovem pode resolver ir a cavalo à próxima aldeia sem temer que — totalmente descontados os incidentes desditosos — até o tempo de uma vida comum que transcorre feliz não seja nem de longe suficiente para uma cavalgada como essa". In: Um médico rural, Companhia das Letras, 1999. Tradução de Modesto Carone.

François Rabelais — Conselhos do gigante Gargântua a seu filho Pantagruel

Conselhos do gigante Gargântua a seu filho Pantagruel. "Aconselho-te, meu filho, a que empregues bem a juventude e aproveites na virtude e no estudo [...] Quero que aprendas perfeitamente línguas, primeiramente o grego, depois o latim; em seguida o hebreu, para conhecimento das Sagradas Escrituras. Que não haja história que não conheças, para o que te ajudará a Cosmografia. Das artes liberais, Geometria, Aritmética e Música, já te deram noções quando eras pequeno, na idade de cinco ou seis anos. Continua a estudá-las e estuda todas as regras de Astronomia. [...] O mundo inteiro está cheio de acadêmicos, pedagogos altamente cultivados, bibliotecas muito ricas, de tal modo que me parece que nem nos tempos de Platão, de Cícero, o estudo era tão confortável como o que se vê a nossa volta. […] Eu vejo que os ladrões de rua, os carrascos, os empregados do estábulo hoje em dia são mais eruditos do que os doutores e pregadores do meu tempo..." Pantagruel é o herói do primeiro romance...

Luís de Camões — Ao desconcerto do Mundo

Ao desconcerto do Mundo Os bons vi sempre passar No Mundo graves tormentos; E para mais me espantar, Os maus vi sempre nadar Em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim O bem tão mal ordenado, Fui mau, mas fui castigado. Assim que, só para mim, Anda o Mundo concertado. Luís de Camões

Rimbaud Livre — A Eternidade

A ETERNIDADE — Arthur Rimbaud De novo me invade. Quem? — A Eternidade. É o mar que se vai Com o sol que cai. Alma sentinela, Ensina-me o jogo Da noite que gela E do dia em fogo. Das lides humanas, Das palmas e vaias, Já te desenganas E no ar te espraias. De outra nenhuma, Brasas de cetim, O Dever se esfuma Sem dizer: enfim. Lá não há esperança E não há futuro. Ciência e paciência, Suplício seguro. De novo me invade. Quem? — A Eternidade. É o mar que se vai Com o sol que cai. Maio 1872 in CAMPOS, Augusto de. Rimbaud Livre, Ed. Perspectiva, 2002.

Cruzeiro Seixas — Desfolhar uma rosa…

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Cruzeiro Seixas — Portugal 1920 — Pintor e Poeta

Aster Navas — Números (miniconto)

Números — Aster Navas Sobre a mesa onde escrevo essas linhas têm três livros e dois cadernos. Da janela da sala se pode ver uma praça onde brincam… 17, não, 18 crianças, que são cuidadas por nove adultos. Do ônibus que para no ponto saem 9 homens, quatro mulheres e o nosso protagonista. Silvia, minha mulher, ri quando digo que estou escrevendo, combinando letras. O seu, querido — já me disse, com essa, 19 vezes— são os números. Não entendo no que ela se embasa. Tradução: Herman Schmitz Aster Navas. Cuentos para leer em el ascensor. 2011

Milan Kundera — Para Liquidar os Povos

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O Livro do Riso e do Esquecimento, 1978.

Zsigmond Móricz — Rir é o Melhor Salário

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MÓRICZ, Zsigmond. Sete Krajkar. Antologia do Conto Húngaro, Paulo Rónai (org).

Dylan Thomas — Amnésia e Simetria

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in O Natal de uma Criança em Gales, 1950 e lido em 1952 na BBC.

19 Princípios Para Crítica Literária — Roberto Schwarz

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19 Princípios Para Crítica Literária 1. Acusar os críticos de mais de 40 anos de impressionismo, os de esquerda de sociologismo, os minuciosos de formalismo, e reclamar para si uma posição de equilíbrio. 2. Citar em alemão os livros lidos em francês, em francês os espanhóis, e nos dois casos fora de contexto. 3. Começar sempre por uma declaração de método e pela desqualificação das demais posições. Em seguida praticar o método habitual (o infuso). 4. Nunca apresentar a vida do autor sem antes atacar o método biográfico. Vários acertos podem ser compensados por uma redação horrível. 5. Não esqueça: o marxismo é um reducionismo, e está superado pelo estruturalismo, pela fenomenologia, pela estilística, pela nova crítica americana, pelo formalismo russo, pela crítica estética, pela linguística e pela filosofia das formas simbólicas. 6. Citar muito e nunca a propósito. Uma bibliografia extensa é capital. Apoie a sua tese na autoridade dos especialistas, de preferência incompatívei...

Franz Kafka — Poseidon

Poseidon sentou-se em seu escritório, revisando as contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho insano. Ele poderia ter quantos assistentes desejasse, e de fato tinha um grande número deles, mas, como levava seu trabalho muito a sério, teimava repassar os olhos por todas as contas, e assim seus assistentes de pouco lhe valiam. Não se pode dizer que se divertisse com a função; ele a levava adiante simplesmente porque era o que lhe haviam atribuído; em verdade, com frequência, havia requisitado o que chamava de um trabalho mais alegre, mas sempre que várias sugestões lhe foram mostradas o resultado era que nenhuma delas lhe era adequada como o era sua presente ocupação. Desnecessário dizer, era muito difícil arrumar para ele uma outra profissão. Afinal, ele não poderia ser o responsável por um oceano em particular. Independentemente do fato de que num caso como este o volume de trabalho envolvido não seria menor, apenas mais aprazível, o grande Poseidon só poderia ocupa...

Milorad Pavić — Interpretação Total

Aprendi de cor a vida de minha mãe e, todas as manhãs, durante uma hora, interpreto-a diante dos espelhos, como no teatro. Isso continua dia após dia, há anos. Uso seus vestidos e seu leque e penteio-me como ela, trançando meus cabelos em forma de touca de lã. Imito-a também na presença dos outros e até no leito do meu bem amado. Nos momentos de paixão, não existo mais, sou ela apenas. Imito-a tão bem, então, que minha paixão desaparece, deixando lugar à dela. Desse modo, ela antecipadamente me roubou todas as carícias do amor. Mas não a censuro por isso, porque sei que também ela foi pilhada da mesma forma por sua mãe. Se alguém me perguntasse agora de que serve tal fogo, responderia: tento colocar-me no mundo de novo, tornando-me, porém, melhor… Dicionário Kazar - Romance Enciclopédia em 100.000 palavras - edição feminina, PAVIC, Milorad; tradução Herbert Daniel, ed. Marco Zero, São Paulo, 1989.

Maomé - A Mesa e a Pena de Luz para Escrever

Tal como criou seu trono, Deus criou uma mesa para escrever tão vasta que um homem poderia caminhar nela mil anos. E era a mesa feita de pérolas branquíssimas e as suas extremidades de rubis e o seu centro de esmeralda. Tudo o que nela escrevia era da mais pura claridade. Deus olhava para a mesa centos de vezes por dia e, cada vez que a olhava, construía e destruía, criava e matava… Tal como criou a mesa, Deus criou uma pena de luz para escrever, tão larga e longa que um homem a poderia percorrer, em largura ou comprimento, quinhentos anos. E, esta criada, Deus ordenou-lhe que escrevesse. Disse a pena «Que escrevo?» A ela respondeu, «Escreverás a minha sabedoria e todas as minhas criaturas, desde o princípio do mundo até ao seu fim». O Livro da Escada de Maomé, cap. XX

Moacyr Scliar — Zap

Não faz muito que temos esta nova TV com controle remoto, mas devo dizer que se trata agora de um instrumento sem o qual eu não saberia viver. Passo os dias sentado na velha poltrona, mudando de um canal para outro - uma tarefa que antes exigia certa movimentação, mas que agora ficou muito fácil. Estou num canal, não gosto - zap, mudo para outro. Não gosto de novo - zap, mudo de novo. Eu gostaria de ganhar em dólar num mês o número de vezes que você troca de canal em uma hora, diz minha mãe. Trata-se de uma pretensão fantasiosa, mas pelo menos indica disposição para o humor, admirável nessa mulher. Sofre, minha mãe. Sempre sofreu: infância carente, pai cruel etc. Mas o seu sofrimento aumentou muito quando meu pai a deixou. Já faz tempo; foi logo depois que nasci, e estou agora com treze anos. Uma idade em que se vê muita televisão, e em que se muda de canal constantemente, ainda que minha mãe ache isso um absurdo. Da tela, uma moça sorridente pergunta se o caro telespectador já conhe...

Milorad Pavić — Sofia

Quando moço, apaixonei-me por uma jovem. Ela não me notava, mas fui perseverante e, certa noite, pude falar com Sofia (era seu nome) de meu amor com um tal ardor que ela me beijou, e senti-lhe as lágrimas em minha face. Pelo sabor das lágrimas, logo compreendi que era cega, mas isto em nada me perturbou. Permanecemos lá, enlaçados, quando ouvimos chegar do bosque próximo um galope de cavalo. — É um cavalo branco cujo galope atravessa nossos beijos?  —  perguntou ela. —  Não sabemos  —  respondi  —  e saberemos somente quando ele sair do bosque. —  Nada compreendeste  —  disse Sofia, e no mesmo instante um cavalo branco saiu do bosque. —  Sim, sim, compreendi tudo  —  repliquei, e perguntei-lhe de que cor eram meus olhos. —  Verdes - disse ela. —  Ora, observai, tenho os olhos azuis... Dicionário Kazar - Romance Enciclopédia em 100.000 palavras - edição feminina, PAVIC, Milorad; tradução...

Milorad Pavić — O Espelho Rápido e o Espelho Lento

ATEH (século IX) - Princesa kazar, cuja participação no debate que precedeu a conversão dos kazares foi decisiva. Seu nome significa entre os kazares "os quatro estados do espírito". De noite, usava em uma das pálpebras uma letra, como aquelas que se inscrevem nas pálpebras dos cavalos antes da corrida. Essas letras pertenciam ao alfabeto kazar proibido, cujas letras matam logo depois de lidas. As letras eram traçadas por cegos e, pela manhã, antes da toalete, as criadas atendiam a princesa com os olhos fechados. Assim, ela ficava protegida de seus inimigos durante o sono. Para os kazares, o sono era o momento em que o homem é mais vulnerável. Para distraí-la, seus criados trouxeram-lhe, certo dia, dois espelhos. Não eram muito diferentes dos outros espelhos kazares. Ambos eram feitos de sal polido, no entanto um era rápido e o outro lento. O que o espelho rápido tirava do futuro ao refletir o mundo, o espelho lento devolvia, pagando a dívida do primeiro, pois este a...

Paulo Leminski — Cotidiano Materno

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Encontrado em: Toninho Vaz, Paulo Leminski - O Bandido que Sabia Latim, Record, 2001.

Elizabeth Bishop - Um sol tão feio como um ovo cru no prato

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Trecho do poema The Burglar Of Babylon, 1964.

Heinz von Foerster — A informação é o mais vicioso dos camaleões conceptuais.

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Epígrafe encontrada no terceiro capítulo "A organização regenerada e generativa", no livro de Edgar Morin: O MÉTODO — 1. A NATUREZA DA NATUREZA, 2ª Edição, Publicações Europa América, 1977.

Voltaire — O Amor Próprio

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Dicionário Filosófico. Verbete: O Amor Próprio. 1764.

Gertrude Stein - A rose is a rose is a rose.

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Parte do poema Sacred Emily de 1913.

Arthur Conan Doyle - Sobre o Poder das Imagens

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Arthur Conan Doyle, Um Caso de Identidade, 1891.

Franz Kafka — Pequena Fábula

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In: Narrativas do espólio. Companhia das Letras, 2002. Tradução de Modesto Carone.

John Cage — Aqui estamos agora.

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É simplesmente irritante pensar que se poderia estar em outro lugar. Aqui estamos agora. Da série EPÍGRAFES ( Citação de um autor, no frontispício de um livro, na abertura de um capítulo, para resumir-lhe o objeto ou o espírito.), neste caso foi encontrado no livro de Christopher Lasch, A Cultura do Narcisismo - A Vida Americana numa Era de Esperanças em Declínio. Capítulo I, O Movimento pela Conscientização e a Invasão Social do Eu. Rio de Janeiro: Imago, 1983. 

De onde menos se espera, daí é que vem… — Dito popular

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Théophile Gautier — Art pour l’art

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A ARTE PELA ARTE, Théophile Gautier foi o primeiro que adotou essa frase como slogan. Mais info em:  http://en.wikipedia.org/wiki/Art_for_art's_sake

Mara Coradello — Autoficção

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MARA CORADELLO: <http://www.cadernobranco.blogger. com.br>. <http://www.escritorassuicidas.com.br>.

Friedrich Nietzsche — Solidão ou Multidão? Então escolhe.

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Na solidão, o solitário se devora a si mesmo, na multidão devoram-no inúmeros. Então escolhe.

Alvaro Cepeda Samudio - A Zarabatana no futebol

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Alvaro Cepeda Samudio, Os Contos de Juana, 1972

J. Swift — Nada é grande ou pequeno a não ser por comparação.

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As Viagens de Gulliver, 1726.

Paul Valéry — O mundo é irregularmente semeado de disposições regulares.

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VALÉRY, Paul. Oeuvres. Paris. Gallimard, 1959, t I, p.671. (Pléiade.)

Rubem Fonseca — do meio do mundo prostituto...

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Rubem Fonseca - E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Machado de Assis - Ideias de Cachorro (Quincas Borba)

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Ideias de Cachorro Machado de Assis, Quincas Borba, 1891.

Marco Aurélio — A Terra inteira é somente um ponto…

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Marco Aurélio, Meditações, Livro 4 (170 D.C.)

Jean de La Fontaine - O Amor e a Loucura (fábula)

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Encontrado em Os Melhores Contos de Loucura de Flávio Moreira da Costa, 2007.