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Mostrando postagens de novembro, 2014

E se o Mundo Fosse Acabar — Marcel Proust

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Marcel Proust, Jacques-Émile Blanche (Fotografo francês 1861–1942). E se o Mundo Fosse Acabar...        Uma pequena questão: se o mundo fosse acabar, o que você faria?    Creio que a vida nos pareceria bruscamente deliciosa, se estivéssemos realmente ameaçados de morrer como você diz. Pense, de fato, em quantos projetos, viagens, amores, estudos nessa — nossa vida — ficam sem solução, invisíveis pela nossa preguiça e ficam eternamente adiados.    Mas se tudo isso fosse para sempre impossível, quão belo não nos pareceria! Há, se realmente o cataclismo estivesse perto, desta vez não deixaríamos de visitar as novas salas do Louvre, de ajoelharmos aos pés da Srta. X... De visitar as Índias. Mas o cataclismo não acontece, não fazemos nada disso tudo, pois estamos no meio da vida normal, aonde a negligência esmorece o desejo.    E entretanto, não deveríamos ter necessidade de cataclismos para amar a vida. Bastaria pensar que somos hum...

Glossário de Miados — Guillermo Cabrera Infante

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Guillermo Cabrera Infante A linguagem de Offenbach    Offenbach se comunica conosco com algo mais do que miados. Seu repertório de sons forma uma linguagem peculiar em que o ouvido treinado busca e encontra significados. Brrr é um ronrom de prazer e de contentamento. Burrr é o ronrom alongado até uma forma de protesto: não se deve continuar acariciando-o, ou se deve acariciá-lo em outra parte do corpo. Miau é a saudação matinal, uma espécie de bom-dia que Offenbach nunca deixa de dar. Miauuu é para pedir algo: de comida até a abertura de uma janela para sentir o cheiro do jardim. Miuu é sempre uma advertência: significa que está presente e, portanto, não se deve pisoteá-lo, ou, o que é pior, passar por cima. Miu é uma simples saudação a qualquer hora do dia. Miawou é a saudação a quem volta para casa. É também uma forma de queixa: ficou muito tempo sozinho. Mia miau é uma exigência: comida atrasada ou alguém que não quer carregá-lo ou ceder-lhe um...

Vivamos, minha Lésbia, e amemos — Caio Valério Catulo

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Vivamos, minha Lésbia, e amemos        Vivamos, minha Lésbia, e amemos, não façamos caso a toda essa falação dos velhos por demais cautelosos.    Os astros podem ocultarem-se e reaparecerem, porém nós, estamos aqui para dormir por toda a eternidade, tão logo acabe a breve chama da nossa vida. Dá-me mil beijos e depois cem, outros mil logo em seguida, e mais outros cem. Comece novamente até chegar a outros mil e ainda a mais outros cem. E depois de termos acumulado muitos milhões, vamos misturá-los até perdermos a conta ou para que nenhum invejoso venha mandingar quando saiba que demos tantos beijos. Caio Valério Catulo (   Verona, 87 ou 84 a.C. - 57 ou 54 a.C. ) Tradução de Herman Schmitz

O Rato e o Eremita - Panchatantra

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O RATO E O EREMITA "O ignóbil que atinge uma posição elevada atenta contra a vida do seu amo, como o rato que, tendo chegado a ser tigre, tentou matar o eremita".    Vivia, no bosque da penitência consagrado ao grande Gautama, um eremita chamado Maátapas.    Um dia, encontrou esse eremita um ratinho que ia sendo carregado por um corvo. O eremita, compassivo por natureza, alimentou-o com grãos de arroz e passou a criá-lo.    Até o dia em que surgiu um gato correndo atrás do rato para comê-lo. Ao vê-lo, correu o rato a se esconder no colo do eremita.   Disse então o eremita:    — Rato, transforma-te tu em gato.    Transformado em gato, porém, fugia o animal ao ver um cão.   Disse então o eremita:     —  Se tens medo do cão; transforma-te tu também em cão.    Transformado em cão, porém, tinha o animal medo do tigre.    Transformou então o eremita o cão em tigre.    Para o ...