sexta-feira, 24 de março de 2017

Lucrécio, Poeta - conto de Marcel Schwob


Marcel Schwob

LUCRÉCIO, POETA



Lucrécio veio ao mundo numa grande família que se retirara da vida social. Seus primeiros dias receberam a sombra do negro pórtico de uma casa alta erguida na montanha. O átrio era severo; os escravos, mudos. Desde cedo o adolescente se viu cercado pelo desprezo da política e dos homens. O nobre Mêmio, que tinha a mesma idade, participou, na floresta, dos jogos que Lucrécio lhe impusera. Juntos, os dois admiraram as rugas das velhas árvores, e espiaram o tremor das folhas ao sol, como um víride véu de luz juncado de manchas de ouro. Muitas vezes contemplaram as costas listradas dos porcos selvagens que fossavam o solo. Atravessaram cachos frementes de abelhas e bandos de formigas em marcha. E certo dia, ao saírem de uma mata de corte, chegaram a uma clareira rodeada de antigos sobros, assentados tão estreitamente que o círculo deles escavava no céu um poço de azul. A paz desse asilo era infinita. Dir-se-ia uma longa estrada clara que ia para o alto do divino ar. Aí foi que Lucrécio teve, num relance, a bênção dos espaços calmos.

Em companhia de Mêmio, deixou o templo sereno da floresta para estudar eloquência em Roma. O antigo fidalgo que governava o solar deu-lhe um professor grego e determinou que só voltasse quando possuísse a arte de desprezar as ações humanas. Lucrécio não tornou a vê-lo: morreu solitário, execrando o tumulto da sociedade. Ao regressar, o jovem trazia para o átrio severo e para o meio dos mudos escravos do solar vazio uma africana linda, bárbara e má. Mêmio regressara à casa dos pais. Lucrécio tinha visto as facções sanguinárias, as guerras dos partidos e a corrupção política. Estava apaixonado.

E, a princípio, a sua vida foi enfeitiçada. Contra as tapeçarias das paredes a africana apoiava as onduladas massas da sua cabeleira. Todo o seu corpo desposara longamente os repousos do leito. Com os braços carregados de esmeraldas translúcidas cingia as ânforas cheias de vinhos espumantes. Tinha um modo estranho de levantar o dedo e de sacudir a testa. Seus sorrisos provinham de uma fonte misteriosa e funda como os rios da África. Em vez de fiar a lã, lacerava-a paciente em farfalhas que lhe esvoaçavam em redor.

Lucrécio desejava ardentemente fundir-se naquele belo corpo. Apertava-lhe os seios metálicos e colava os lábios àqueles lábios de um roxo sombrio. As palavras de amor passaram de um para o outro, foram suspiradas, fizeram-nos rir, e gastaram-se. Os dois tocaram no véu flexível e opaco que separa os amantes. A sua volúpia cresceu em furor e desejou mudar de pessoa. Chegou ao extremo agudo em que se expande à volta da carne, sem penetrar nas entranhas. A africana enroscou-se-lhe dentro do coração selvagem. Lucrécio desesperou-se por não poder realizar o amor. A mulher tornou-se altiva, sombria e silenciosa, tal qual o átrio e os escravos. Lucrécio errou pela sala dos livros.

Foi então que desdobrou o rolo onde um escriba copiara o tratado de Epicuro.

Imediatamente compreendeu ele a variedade das coisas deste mundo e a inutilidade de aspirar às ideias. O Universo pareceu-lhe semelhante às farfalhas de lã que os dedos da africana espalhavam pelas salas. Os cachos de abelhas e as colunas de formigas e o tecido móbil das folhas foram para ele agrupamentos de átomos, e em todo o corpo sentiu um povo invisível e discorde, ávido de separar-se. E os olhares pareceram-lhe raios, mais sutilmente carnudos, e a imagem da linda bárbara, um mosaico agradável e colorido, e teve a sensação de que o fim do movimento dessa infinidade era triste e vão. Assim como às facções ensanguentadas de Roma, com suas tropas de clientes armados e insultadores, contemplou o torvelinho de rebanhos de átomos tintos do mesmo sangue e que disputam entre si uma obscura supremacia. E viu que a dissolução da morte era apenas a emancipação dessa turba turbulenta que se atira a mil outros movimentos inúteis.

Ora, mal recebeu Lucrécio essa instrução do rolo de papiro onde as palavras gregas se achavam entretecidas, como os átomos do mundo, saiu à floresta pelo negro pórtico da casa solarenga dos antepassados. E avistou o dorso dos porcos listrados que tinham o focinho sempre dirigido para a terra. Depois, atravessando a mata de corte, súbito se encontrou no meio do templo sereno da floresta, e seus olhos penetraram no poço azul do céu. Foi ali que fixou o seu descanso.

Dali contemplou a imensidade formigante do Universo: todas as pedras, todas as plantas, todas as árvores, todos os animais, todos os homens com as suas cores, as suas paixões, os seus instrumentos, e a história dessas coisas diversas, e seu nascimento, e suas doenças, e sua morte. E, no meio da morte total e necessária, percebeu claro a morte única da africana, e chorou.

Sabia que as lágrimas vêm de um movimento particular das glandulazinhas dispostas sob as pálpebras e agitadas por uma procissão de átomos saídos do coração, quando o próprio coração sofreu o choque duma sucessão de imagens coloridas que se desprendem da superfície do corpo da amada. Sabia que o amor não é devido senão a uma intumescência de átomos desejosos de se juntar a outros átomos. Sabia que a tristeza causada pela morte não passa da pior das ilusões terrestres, pois a morta cessara de ser infeliz e de sofrer, enquanto aquele que a chorava se afligia com os seus próprios males e sonhava tenebrosamente com a própria morte. Sabia que de nós não resta nenhum simulacro duplo para verter lágrimas sobre o próprio cadáver estendido a nossos pés. Mas, conhecendo exatamente a tristeza e o amor e a morte, e sabendo que estes são imagens vãs quando as contemplamos do espaço calmo a que nos devemos recolher, continuou a chorar, a desejar o amor e a temer a morte.

Eis por que, de regresso à casa alta e sombria dos antepassados, se aproximou da bela africana, que estava preparando uma beberagem numa panela de metal em cima de um braseiro. De fato, ela por sua vez também sonhara, e seus pensamentos remontaram à fonte misteriosa do seu sorriso. Lucrécio contemplou a beberagem ainda fervente, que aos poucos foi clareando e se tornou semelhante a um céu verde e turvo. E a bela africana sacudiu a cabeça e levantou o dedo. Então Lucrécio bebeu o filtro. E imediatamente a razão lhe fugiu, e ele esqueceu todas as palavras gregas do rolo de papiro. E pela primeira vez conheceu o amor, sendo louco; e durante a noite, tendo sido envenenado, conheceu a morte.

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Mayer André Marcel Schwob, known as Marcel Schwob (23 August 1867 – 26 February 1905), was a Jewish French symbolist writer best known for his short stories and his literary influence on authors such as Jorge Luis Borges and Roberto Bolaño. He has been called a "surrealist precursor". In addition to over a hundred short stories, he wrote journalistic articles, essays, biographies, literary reviews and analysis, translations and plays. He was extremely well known and respected during his life and notably befriended a great numbers of intellectuals and artists of the time. Wikipedia: Marcel_Schwob.

Chá preto e café da manhã — Literatura & Culinária - Donna Tartt (O Pintassilgo)


TEXTOS COM SABOR

Chá preto e café da manhã

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“Chá preto, é disso que você precisa”, disse o sr. Barbour certa vez, enquanto eu cochilava no café da manhã, servindo-me uma xícara. “Assam Supreme. Forte que só vendo. Vai tirar o remédio do seu organismo na hora. Judy Garland? Antes dos shows? Bem, minha avó me disse que Sid Luft ligava pro restaurante chinês pedindo um grande bule de chá pra tirar todos os barbitúricos do organismo dela, isso em Londres, acho, no Palladium. Chá forte era a única coisa que resolvia, às vezes eles tinham sérias dificuldades pra conseguir acordá-la, sabe, só pra tirá-la da cama e vesti-la…”

“Ele não pode beber assim, é forte demais”, disse a sra. Barbour, colocando dois cubos de açúcar e bastante leite antes de me passar a xícara. “Theo, odeio ficar insistindo nisso, mas você realmente precisa comer alguma coisa.”

“Tá bem”, falei, sonolento, mas sem fazer menção de dar uma mordida no meu muffin de mirtilo. Pra mim, a comida tinha gosto de papelão; havia semanas não sentia fome.

“Prefere uma torrada com canela? Ou com aveia?”

“É absolutamente ridículo você não nos deixar tomar café”, disse Andy, que tinha o hábito de comprar um enorme no Starbucks a caminho da escola e depois outro na volta pra casa, sem o conhecimento dos pais. “Você está muito desatualizada nesse ponto.”

“Talvez”, disse a sra. Barbour, com frieza.

“Meia xícara já ajudaria. É absurdo esperarem que eu tenha química avançada às quinze para as nove da manhã sem nenhuma cafeína no sangue.”

“Coitadinho”, disse o sr. Barbour, sem tirar os olhos do jornal.

“Sua atitude não ajuda em nada. Todo mundo na escola toma café.”

“Acontece que eu sei que isso não é verdade”, disse a sra. Barbour. “Betsy Ingersoll me disse…”

“Talvez a sra. Ingersoll não deixe a Sabine tomar café, mas seria preciso bem mais que uma xícara pra aquela menina entrar em qualquer turma avançada.”

“Isso foi desnecessário, Andy, e muito indelicado.”

“Bem, só estou falando a verdade”, ele disse friamente. “Sabine é burra feito uma porta. Suponho que deva mesmo cuidar da saúde, já que não pode fazer nada em relação à cabeça.”

“Cérebro não é tudo, querido. Você comeria um ovo pochê se Etta fizesse pra você?”, perguntou a sra. Barbour, voltando-se para mim. “Ou frito? Ou mexido? O que você quiser.”

“Gosto de ovos mexidos!”, disse Toddy. “Posso comer quatro!”

“Não, você não pode, amigão”, disse o sr. Barbour.

“Sim, eu posso! Posso comer seis! Posso comer a caixa inteira!”

“Não é como se eu estivesse pedindo Dexedrina”, disse Andy. “Apesar de que até poderia conseguir na escola se quisesse.”

“Theo?”, disse a sra. Barbour. Percebi que Etta, a cozinheira, estava parada na porta. “E quanto àquele ovo?”

“Ninguém nunca pergunta o que a gente quer pro café da manhã”, disse Kitsey; e embora ela tenha falado bem alto todo mundo fingiu que não ouviu.

(P. 254)

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Donna Tartt é uma escritoraromancistaensaísta e crítica norte americana.

O Pintassilgo (The Goldfinch)

Terceiro romance da escritora, publicado nos Estados Unidos da América em 2013, 11 anos depois do segundo livro da mesma autora. Manteve-se durante semanas na lista dos livros mais vendidos do New York Times, tendo ganho o Prémio Pulitzer de Ficção de 2014. A história tem por protagonista Theo Decker, que sobrevive aos 13 anos a um ataque terrorista que vitima mortalmente a mãe. Desorientado, numa nova casa, numa escola onde tem colegas que o perseguem, refugia-se num quadro, a obra de Carel Fabritius, "O Pintassilgo". Este romance é sobre a perda, o instinto de sobrevivência e a história de uma obsessão.
Donna Tartt tem auxiliado alguns autores desconhecidos a lançar a sua carreira e coopera em projectos tanto de ficção como não ficcionais, incluindo uma biografia controversa do actor Anthony Perkins. Wikipedia: Donna_Tartt

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sexta-feira, 3 de março de 2017

Franz Kafka - Sobre os livros


Franz Kafka - Sobre os livros

Deveríamos apenas ler livros que nos mordem e espicaçam. Se a obra que lemos não nos desperta com um golpe de punho sobre o crânio, qual é a vantagem de a ler? Para que nos torne felizes, como afirmas? Meu Deus, seríamos da mesma forma felizes se não tivéssemos livro. E os livros que nos deixam felizes, a rigor, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Em contrapartida, precisamos de livros que sobre nós atuem de modo igual a uma desgraça; que nos façam sofrer muito, como a morte de quem amássemos mais do que a nós mesmos, como um suicídio. Um livro deve ser o machado que rompe o mar gelado existente em cada um de nós. 

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Carta a Oskar Pollak, de 27 de janeiro de 1904. In: NUNES, Danillo. Franz Kafka: vida heroica de um anti-herói. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1974. p. 167-168.