Ciúmes — Sir John Randolph "Shane" Leslie


CIÚMES

por Sir John Randolph "Shane" Leslie (1885-1971) —


Dentro da categoria dos pecados, o ciúme é o pior e mais terrível. Talvez não seja o mais imperdoável, mas é, sem dúvida, o menos indulgente. O ciúme desafia toda definição ou análise. Na loucura há um método, no amor um refinamento, mas o ciúme não sabe como elaborar um plano nem como ceder a tempo. É uma torrente furiosa de suspeitas e interpretações errôneas que nunca espera o momento oportuno nem respeita qualquer canal. É a paixão mais avassaladora conhecida pela humanidade, pois lhe faltam gradações, prelúdio e convalescença. Surge totalmente formada, completa e absoluta, da mente da pessoa ciumenta, e não dá trégua nem a quem a nutre nem, se possível, à sua vítima. Tanto em homens quanto em mulheres, conspira para perpetrar atos tão insanos quanto criminosos, que só podem ser perdoados, e nem sempre, por aqueles que agem cegos pela paixão do amor.


O ciúme é a perversão do Amor. É para o Amor o que as maçãs de Sodoma são para a fragrância da flor de laranjeira. Mais ainda, eu diria, o que o Ateísmo é para a Fé, ou a Depravação para a Santidade. E, no entanto, já foi demonstrado que todos os grandes amantes, mais cedo ou mais tarde, devem contornar o abismo do ciúme, assim como todos os grandes místicos, para alcançarem o êxtase divino, devem contemplar aquele abismo gélido que pode ser descrito como o Tempo sem Deus — isto é, o Inferno —, pois o Céu é Deus sem o Tempo.

O ciúme é ainda mais cruel que o amor, embora o amor já seja inegavelmente cruel o suficiente. O amor destrói mais frequentemente o amante do que o amado, mas o ciúme busca apenas a destruição de suas vítimas. O ciúme é a elefantíase do sentimento, o amor transmutado em lepra! Imagine o divino Eros, de faces rosadas, subitamente transformado em um leproso com a pele branca como a neve! Imagine suas asas iridescentes, outrora tão flexíveis, agora crostosas e rachadas como os discos de um fungo podre! Imagine seus membros pequenos e delicados inchados e cobertos de pústulas, seu rosto divino coberto de bolhas e rugas, suas orelhas de madrepérola rachadas e lascadas, e sua boca aberta como uma velha ferida em vez de um botão de rosa fresco! Imagine os olhos deles se decompondo com um olhar malévolo nas órbitas, e mesmo assim você não terá uma ideia completa do que é o ciúme, esse flagelo da humanidade e, aparentemente, também dos deuses, pois está escrito que em suas fileiras há mais de uma pessoa invejosa!

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