quarta-feira, 5 de março de 2014

Herman Schmitz - Feito à Mão (Miniconto)


FEITO À MÃO

por Herman Schmitz


Não estou mais sozinho. A cada dia, mais e mais fantasmas juntam-se como uma multidão rotineira avançando sobre as vias já congestionadas dessas imagens fragmentadas na minha retina. A sensação do tempo praticamente acabou. Posso ir à vontade, para cima e para baixo, posso voltar o filme em qualquer direção que eu deseje, posso assinalar esse aqui e segui-lo como um cão sabujo. Essa aí de vermelho, por exemplo, eu sei que mora num pequeno apartamento na 56. São tantos pedestres pedindo a minha atenção que já perdi a conta e o tempo com isso.

A fase seguinte, é a das construções delicadas. Me apetecem várias formas de ornados, desde os parangolés até o mosaico português. Neles coloco essas pessoas, para dirigirem-se sempre nas mesmas posições, dentro dos mesmos motivos. Essa ordem geométrica as atrai como o mel às abelhas.

Seus movimentos então são perfeitamente distinguidos em cada hora do dia: de manhã, saem à rua e andam algumas quadras, descem escadas, entram em metros mais ou menos lotados, sobem por outras escadas e elevadores e pisam pisos de mármore ou granito e sentam-se frente a mesas e conversam animados e telefonam e digitam e falam, falam, falam... E eu os vejo daqui.

Observo as suas refeições, algumas no próprio escritório, outras em restaurantes animados, refrigerados, com deliciosos pratos sobre a mesa.

Observo todas as suas andanças, vejo também suas voltas e revoltas no trânsito apinhado. Enfim, vejo esses seus rostos pálidos sempre no mesmo itinerário, infinitas vezes como num jogo de espelhos convexos.

E a noitinha, os encontro novamente, aqui nestas ruas que se cruzam. Todos apressados e preocupados. De certa forma encantados além do meu desejo, já que não são mais frutos da minha imaginação, parecem mais uma foto, quer dizer, uma foto de uma pintura, sim, é isso, uma pintura, uma aquarela feita por algum pintor americano, ou se não, pelo menos alguém que pintou o que parece ser uma avenida em Nova Iorque, mas quem é esse pintor ordinário e estúpido que veio se mesclar no meu juízo, eu não quero saber. Eu não te conheço nem quero te conhecer. Maldito intruso.

Mais um dia está se passando. Mas para mim ainda é o mesmo dia de ontem. A mesma neblina pesada cobrindo o céu, os tons de amarelos escuros que se balançam com os tons de azul. Na direita em cima, na altura da placa de Don't Walk, o início da linha da perspectiva, que desce tão suavemente até o centro do quadro. Por outro lado, à esquerda no centro, logo atrás da moça de branco, há um casal parado, num aperto abraçado de tensão como em uma despedida ou um reencontro muito desejado.

Fora isso, tudo segue igual está: amorfo, individualizado, estilizado ao extremo, mas de um equilíbrio extremamente bem executado. Uma armadilha visual que te cega e hipnotiza, mas não a mim, que a tenho aprisionada em minha mente.

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